Bloqueio de cargas de madeira em Santarém pode ser estopim de conflito no Pará
Enviada em 23 de outubro de 2009 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
Comunidade denuncia que, a cada semana, mais de dez balsas carregadas de madeira descem o Rio Arapiuns. Num sobrevoo na região, Sindicato e ONG apresentam imagens de cinco pontos de exploração de madeira e uma devastação que chega a três mil hectares
Moradores de 26 comunidades da região dos rios Arapiuns e seu afluente Maró, no município de Santarém, no Pará, fazem um bloqueio, desde a última semana, de duas balsas carregadas com aproximadamente mil e quinhentos metros cúbicos de madeira. O protesto das comunidades é contra a freqüente exploração de madeira na Gleba Nova Olinda, feita ilegalmente e sem fiscalização do governo do estado, segundo o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém - STTR. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA rebate as acusações e diz que já comprovou a legalidade das toras interditadas.
Relatos dos moradores apontam que, a cada semana, mais de dez balsas carregadas de madeira descem o Rio Arapiuns. A comunidade denuncia que grande parte dessa carga é extraída ilegalmente. A Gleba Nova Olinda é uma das 13 Glebas estaduais que existem na região e está localizada entre os municípios de Santarém e Juruti, no oeste do Estado.
Desde 2002, quando se instalou na região um consórcio de aproximadamente 50 plantadores de soja, é freqüente o registro de conflitos entre madeireiros, grileiros e comunidades ribeirinhas. Esses empresários são dos estados de Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. O Greenpeace, que acompanha e denuncia esses conflitos e irregularidades na região desde 2002, afirma que, desde que o governo do estado assumiu a aprovação de planos de manejo florestal, em 2006, a situação ficou cada vez mais séria na gleba, com o agravamento da extração ilegal de madeira, grilagem de terras e violência contra as comunidades.
As comunidades reivindicam a área para a utilização de forma sustentável, mas, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém, o governo estadual entregou as áreas nas mãos de empresários, criando planos de manejo que os autorizam a extrair madeira desses locais. Eles afirmam que o governo do estado não teria sequer controle dos planos de manejos autorizados.
“Essa exploração feita pelo setor madeireiro só aumenta e nos angustia, pois é uma exploração de corte raso, ilegal, que não tem nada de manejo florestal. Nós queremos o cancelamento desses planos de manejo, a criação de projetos extrativistas para que essa exploração volte a ser feita pela comunidade. Nós sobrevivemos do extrativismo da madeira fazendo canoas, remos, pequenas embarcações, tudo isso de forma sustentável, agora só vemos balsas com toras de madeiras extraídas ilegalmente serem retiradas das nossas comunidades”, denuncia Manoel Edvaldo Santos, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém.
Edvaldo está acampado na comunidade São Pedro, localizada nas margens do Rio Arapiuns, onde estão as duas balsas interditadas pelos moradores. Segundo ele a mobilização sensibilizou todos os moradores dessa região. Diariamente, uma média de 400 pessoas participa da mobilização na beira do Rio Arapiuns. Os moradores afirmam que não deixarão as balsas seguirem viagem enquanto o governo do estado não fiscalizar essa carga e atender suas reivindicações.
Secretaria diz que carga é legal
De acordo com o subsecretario adjunto da Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA, Rosemiro Canto Filho, após a vistoria feita pelos técnicos da Secretaria nesta quinta-feira, 22, foi comprovada a legalidade das toras interditadas pelos ribeirinhos e indígenas no Rio Arapiuns. “Foi comprovado que toda a madeira é proveniente de plano de manejo sustentável totalmente legal e autorizado pela SEMA. Essa ação dos trabalhadores surpreendeu o governo e pode ter interesses de ONGs por trás disso. É importante salientar que os manejos autorizados na região empregam 400 pessoas”, afirma o subsecretário. Ele alega também que todos os planos de manejos autorizados na região são fiscalizados.
Para o agente comunitário de saúde, Rui Sarmiento, morador da comunidade de São Pedro, é importante que a população leve adiante o protesto. Rui relembra as inúmeras tentativas da comunidade em denunciar a ação ilegal dos empresários na região, sem nunca obterem resposta do governo. “Os empresários são perigosos e tem muito poder, mas precisamos resistir a essa ação. Muito já foi tirado daqui, precisamos garantir um futuro melhor para nossos filhos, que certamente também terão de continuar essa luta”.
“Esse problema deixou de ser dos moradores da Gleba Nova Olinda e passou a ser dos moradores do Rio Arapiuns. Eles não querem ver o rio destruído pelos cascos de madeiras, nem muito menos pelo agronegócio e pela grilagem”, afirma o presidente do Sindicato, Raimundo Mesquita.
Três mil hectares devastados
Nesta quinta-feira (22), uma equipe de técnicos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará (SEMA) começou uma vistoria na área da Gleba para averiguar as denúncias de extração ilegal na área. Mas a ação da Secretaria estadual não agrada a comunidade. Eles querem que essa fiscalização seja feita com técnicos de outros órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou técnicos independentes.
Nesta semana, representantes do Sindicato e da ONG Terra de Direitos sobrevoaram a Gleba Nova Olinda e constataram, com o auxílio de imagens de satélite, a existência de pelo menos cinco pontos de exploração de madeira. Uma devastação de aproximadamente três mil hectares.
Segundo Rosemiro Filho, técnicos da secretaria estão tentando manter o diálogo pela liberação da carga, mas a orientação dada para a Chefia de Fiscalização da SEMA em Santarém é que essa madeira extraída legalmente seja protegida. Mas os ribeirinhos e indígenas reafirmam que, enquanto não forem atendidas as reivindicações, nenhuma balsa vai passar pelo rio.
Notícias da Amazônia (Por Gisele Barbieri)
Foto: Greenpeace




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