Lula: “Não conhecemos na história nenhum momento em que uma nação indígena invadiu a terra de outro”
Enviada em 19 de abril de 2010 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
As comemorações do Dia do Índio começaram com uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Na cerimônia, Lula saiu em defesa dos indígenas afirmando que nunca os viu reivindicar nada que não lhes fosse de direito. “Não conhecemos na história nenhum momento em que uma nação indígena invadiu a terra de outro para tomar conta, pelo contrário, o que acontece normalmente são os outros invadirem as terras indígenas tentando se apossar de uma terra que não é deles”.
Cerca de cinco mil pessoas participaram da festa, que termina nesta terça-feira, 20, com o retorno dos indígenas a suas aldeias. Lula ganhou um cocar, que usou durante parte do tempo que esteve no local, recebeu uma defumação de pajés da comunidade, plantou uma árvore e tentou manusear um arco e flecha, sem muito sucesso.
A primeira visita do Presidente à Reserva - e segunda à Roraima em oito anos de governo - foi marcada por presentes e homenagens a Lula pela demarcação da Terra Índigena, mas também houve espaço para cobrança: os cerca de 19 mil índios que vivem na Reserva querem a garantia de recursos para que a produção das aldeias seja autossustentável.
O presidente Lula se reuniu por cerca de uma hora com as lideranças indígenas das etnias Macuxi, Wapixana, Taurepang, Ingaricó e Patamona. “Me entregaram com uma mão um documento agradecendo e com outra 20 documentos reivindicando”, brincou o presidente.
O tuxaua (cacique) da comunidade do Maturuca, Jacir José de Spuza, disse que os índios estão preparados para “participar ativamente do desenvolvimento do país”. “Trabalhamos muito tempo no silêncio e na paciência. É hora de dizer não à invasão, à escravidão da cachaça, do garimpeiro e da fome”.
O coordenador-geral do Conselho Indígena de Roraima, Dionito José de Souza, lembrou o histórico da luta indígena pela área, que era ocupada por produtores rurais não índios e disse que a luta agora é pela dignidade dos povos da região.
Lula disse que as demandas serão discutidas em uma reunião extraordinária da Comissão Nacional de Política Indigenista, marcada para maio, e prometeu voltar à Raposa Serra do Sol em setembro para fazer um balanço do que foi atendido.
“Desenvolvimento sem tirar o direito dos índios”
No discurso na comunidade do Maturuca, no coração da terra indígena, o presidente Lula afirmou que interessa ao governo federal o crescimento econômico do estado, mas sem tirar o direito dos índios. Para Lula, em um estado com tanta terra para produzir, não é possível que alguns queiram justamente a área da terra indígena.
“Passamos 6 milhões de hectares do governo federal para o estado de Roraima para que a gente pudesse dar terra para quem quisesse trabalhar, sobretudo para pequenos e médios proprietários porque a nos interessa que Roraima seja desenvolvido, cresça economicamente sem tirar o direito dos índios viverem tal como eles queiram viver”, afirmou o presidente.
Demarcada em 1998 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e homologada em 2005 por Lula, a reserva foi alvo de uma briga judicial com o governo de Roraima, que questionou no Supremo Tribunal Federal (STF) a demarcação em área contínua. Os opositores defendiam a demarcação em ilhas, para que seis grandes produtores de arroz e outros produtores rurais não índios pudessem permanecer na área.
O STF confirmou a homologação em área contínua, mas a saída dos não índios não conseguiu resolver as disputas internas entre as comunidades, ligadas ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) ou à Sociedade de Defesa dos Povos Indígenas de Roraima (Sodiu-RR), que ainda divergem e brigam por espaço na ocupação e organização dentro da terra indígena.
O presidente Lula prometeu luz elétrica à comunidade do Maturuca, encravada em uma região de serras e de difícil acesso. Por causa da visita do presidente, foram instalados geradores na área temporariamente.
Ele citou como solução o Programa Luz Para Todos. “Chegando em Brasília vou pedir para o ministro de Minas e Energia [Márcio Zimmermann] vir aqui para resolver esse problema. Já levamos energia elétrica a mais de 12 milhões de pessoas, com o Luz para Todos, e queremos levar para cada brasileiro”.
Lula disse ainda que há muito o que fazer pelos povos indígenas brasileiros a fim de compensar os 500 anos de exploração. “Por mais que a gente faça, sempre teremos muito mais a fazer, para recuperar o atraso a que vocês foram submetidos, de esquecimento. Nós haveremos de recuperar isso”.
Logo depois de almoçar com os indígenas, Lula deixou a Reserva acompanhado dos ministros da Saúde, José Gomes Temporão, da Justiça, Luiz Paulo Barreto, da Cultura, Juca Ferreira, da Igualdade Racial, Eloi Araújo, da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, do presidente da Fundação Nacional do Índio, Márcio Meira, e do ministro do STF José Antonio Dias Toffoli.
Notícias da Amazônia (com informações Agência Brasil)
Fotos: Agência Brasil





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