Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia Boliviana

Enviada em 14 de junho de 2010 – Imprimir esta matériaEnviar para um amigo

Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia BolivianaEm cidades como Alta Floresta, um dos pólos do Programa, redução de queimadas chegou a 98%

Depois de dez anos de trabalho no Brasil, o Programa Amazônia Sem Fogo abre o caminho agora para outros países amazônicos. O primeiro deles será a Bolívia. Desde o começo deste ano já foram realizadas missões nos dois países para conhecer a experiência do projeto da Cooperação Italiana na Amazônia Brasileira (fotos).

Desde 1999 o Amazônia Sem Fogo atua preventivamente com o objetivo de reduzir o fenômeno dos incêndios Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia Bolivianaflorestais e melhorar as condições de vida dos produtores das comunidades rurais atendidas.

O projeto - fruto de uma ação conjunta da Direção Geral da Cooperação Italiana, da Embaixada da Itália no Brasil e do Ministério do Meio Ambiente – formou multiplicadores que hoje já estão repassando às comunidades as técnicas desenvolvidas durante os doze meses em que participaram de dez módulos de diferentes assuntos relacionados às queimadas, realizados durante três dias por mês. O Programa formou 383 multiplicadores de um total de 97 municípios.

Foram mais de 613 mil quilômetros percorridos pelos participantes do programa nos rios e estradas amazônicas. “Hoje esses multiplicadores são responsáveis pela reprodução das técnicas de alternativas ao uso do fogo para dezenas de comunidades da Amazônia. O Programa segue agora para a Bolívia levando na bagagem resultados muito positivos no Brasil”, comemora o coordenador geral do Programa, Roberto Bianchi.

E de fato os números mostram que as alternativas ao uso do fogo podem fazer a diferença na redução das queimadas e desmatamento na Amazônia, Em Guarantã do Norte, Mato Grosso, redução nas queimadas chegou a 93%. Em Alta Floresta, também no Mato Grosso, a redução chegou a 98% em 2008 e a cidade recebeu do governo do estado um prêmio de R$ 300 mil por ser a cidade que menos realizou queimadas no estado no ano de 2008. O Programa concentrou as atividades numa área da Amazônia considerada de maior risco, compreendida na região onde se encontram as rodovias BR 163 e a Transamazônica, e mais especificamente o Baixo Amazonas e o Médio Xingu. O Programa chegou também em territórios do Araguaia e o Portal da Amazônia (arco de desmatamento).

Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia BolivianaO coordenador da Secretaria de Biodiversidade e Floresta do MMA, Carsius Azevedo dos Santos, explica que o uso do fogo está fortemente presente na lógica cultural e econômica dos agricultores e fazendeiros da região amazônica. Hoje, as causas dos incidentes são, sobretudo, as práticas utilizadas na agricultura e comportamentos equivocados em relação ao meio ambiente. A limpeza do solo representa 63,7% da área total destruída, enquanto os incêndios dolosos causam 14,7% das devastações e os incêndios acidentais 11,6%. Causas diversas (4,4%) e pontas de cigarro (2,9%), junto a faíscas geradas pelos trilhos da linha ferroviária (0,5%), também são fatores de incêndios. As causas naturais, com apenas 0,2% de incidência, podem ser consideradas irrelevantes na análise do fenômeno.

“É preciso dar alternativas viáveis para que as comunidades deixem de praticar a queimada e vejam nas alternativas uma atividade capaz de gerar trabalho e renda para a comunidade. Esse é o grande mérito do Amazônia Sem Fogo, pois foi um programa capaz de construir com as comunidades as demandas e as atividades mais compatíveis com cada região”, explica Carsius.

“O Brasil é um centro de referência de alternativas ao uso do fogo. A missão boliviana ficou muito entusiasmada com a experiência brasileira e é isso que nós queremos: respeitando as particularidades de cada país amazônico, compartilhar a nossa experiência como forma de preservar a Amazônia”, diz Carsius.

Segundo ele, cada vez mais o Programa terá “vida própria” no Brasil. Depois da fase de formação dos multiplicadores e da assinatura de protocolos municipais – que formalizaram a intenção das prefeituras em incentivar as unidades demonstrativas e as práticas alternativas – o Amazônia Sem Fogo está agora na fase de consolidação do Programa nas próprias comunidades.

Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia BolivianaRoberto Bianchi explica que hoje, cada comunidade recebe os multiplicadores e formadores seniores para as atividades de disseminação das técnicas. “Nessa etapa serão realizadas oficinas de associativismo e cooperativismo para as comunidades. As unidades demonstrativas já mostram resultados surpreendentes e as comunidades estão cada vez mais envolvidas no Programa que está cada vez mais autossustentável. Esse é o caminho que queremos aqui e nos outros países amazônicos”, comemora Bianchi. Hoje cerca de 150 multiplicadores estão atuando na fase de consolidação que vai atingir cerca de 800 comunitários em 40 unidades demonstrativas.

 Unidades Demonstrativas
Uma das ações do Programa é a implantação das chamadas Unidades Demonstrativas, que servem como pontos de referência para a aplicação das técnicas abordadas e como ponto de encontro entre os multiplicadores e os comunitários. A instalação das Unidades foi realizada em propriedades de produtores rurais interessados no projeto ou em terrenos cedidos pelos municípios. No Acre, pro exemplo, destaque para a experiência de uma unidade de mucunha preta, uma leguminosa que sobe na capoeira e a sufoca. Nela se planta feijão e tudo o que o produtor precisa plantar, pois ela nutre o solo, favorece a umidade e dispensa o uso do fogo. De acordo com os coordenadores, também no Acre é possível citar exemplos de produtores que tinham uma renda de R$ 350,00 por mês e que hoje vendem anualmente cerca de 100 mil mudas de citrus a R$ 6,00 cada.

Depois do Brasil, Amazônia Sem Fogo quer reduzir queimadas na Amazônia BolivianaDurante o Programa foram instaladas quatro unidades demonstrativas de manejo sustentável de pastagens; uma de viveiro de produção de mudas de plantas tropicais; cinco de produção de adubos orgânicos; três de cerca elétrica para manejo de animais; cinco de uso de mucuna para recuperação de área degradada; uma de produção de hortaliças sem uso de agrotóxicos; uma de aproveitamento de resíduos de madeira; e uma de Brigada Comunitária de prevenção e combate aos incêndios florestais.

“O Brasil tem hoje uma experiência muito positiva para compartilhar com a Bolívia nessa área e já fizemos várias reuniões para troca de conhecimento. É uma ação entre Brasil, Itália e Bolívia que faz a diferença na preservação da Amazônia e vida das comunidades da região”, afirma Bianchi.

O Programa
A Cooperação Italiana é a principal financiadora do Programa Amazônia Sem Fogo e já investiu desde de 1999 cerca de 10 milhões de euros. Também participam do Programa o Ibama/PrevFogo, o Serviço Florestal Brasileiro, Departamento de Execução Ambiental, o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal e das localidades onde está o programa, além de instituições e entidades locais que contribuem cedendo seus espaços para a realização dos módulos.

Desde o início até 2002 foi realizada a chamada fase emergencial, na qual foram alinhadas as ações do programa às ações do Ministério do Meio Ambiente para agir imediatamente em algumas áreas. Depois dessa etapa a atuação do Programa se concentrou não na prevenção e combate às queimadas, mas nas alternativas ao uso do fogo. Na terceira fase, iniciada em 2007, o programa concentrou as ações na formação técnica para lideranças comunitárias e técnicos para que, ao final de 2008, o processo desses quase dez anos de trabalho pudesse ser reproduzido nas comunidades. Para Bianchi, uma outra grande conquista do Programa foi a assinatura dos protocolos municipais, que demonstram a intenção dos participantes de continuar o trabalho e manter as parcerias. Foram mais de 64 municípios da Amazônia assumindo o compromisso com a prevenção e o controle do uso do fogo.

Fonte: Ascom/Amazônia Sem Fogo