Caixa guarda “tesouro” de expedição feita na Amazônia
Enviada em 31 de março de 2008 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
Uma caixa pesada de madeira, escondida no armário, preserva um tesouro assediado por museus e universidades. É uma pasta-catálogo com 500 páginas originais do diário escrito por Hércules Florence durante a histórica Expedição Langsdorff, que por três anos vasculhou a Floresta Amazônica para identificar espécies nativas de fauna e flora.
Florence, que mais tarde entraria para a história como um dos pioneiros da fotografia, era um dos desenhistas da expedição científica. Ao lado de um naturalista europeu, o barão Georg Herinrich von Langsdorff, ele percorreu de barco os rios brasileiros.
Florence redigiu, de próprio punho, o “diário” da expedição. São imagens perfeitas: índios se pintando para cerimônias, socando grãos ou fabricando redes; ocas erguidas na mata; expedicionários construindo canoas ou montando acampamento.
As paisagens são dignas de quadros: saltos fluviais, ilhas, mangues. Todos os desenhos são intercalados com textos que registram as dores e as alegrias de uma epopéia.
O que começou como uma viagem científica, disposta a encontrar riquezas e culturas nativas, teve tragédias em série. Adrien Taunay, por exemplo, primeiro desenhista da expedição, morreu afogado no Rio Guaporé, que nasce no Mato Grosso e desemboca no Rio Mamoré, em Rondônia.
É que o grupo se separou em Cuiabá. Quando Taunay morreu, Florence fazia parte do grupo que viajava até Santarém (PA), subindo o Rio Tapajós (que parte do Mato Grosso e atravessa o Pará).
Neste trecho da expedição, o barão teve problemas mentais. Psicoses provocadas, provavelmente, pela malária que acometia os estudiosos à bordo. Os dramas, escritos em francês (língua nativa do desenhista) aparecem em páginas amareladas. Em alguns pontos, o texto já desapareceu.
O acervo fantástico pertence a Tereza Cristina Florence Goedhart, trineta de Hércules. As folhas encadernadas têm, na capa dura, o nome gravado da obra: L:Ami des Arts, Livré à Lui-Même (O Amigo das Artes, por ele mesmo).
Tereza, uma senhora de 68 anos, ganha a vida como tradutora e professora de línguas no bairro Cambuí, em Campinas. Para provar que o amor à arte está no sangue, ela decorou as paredes da escola com suas próprias pinturas.
Ela conta que herdou as páginas originais do pai Arnaldo Machado Florence, fotógrafo e industrial paulistano. “Eu aprendi com meu pai a cultuar a memória de Hércules, um cidadão de talento e fibras raros, um autêntico herói”, afirma.
A professora admite que o texto e os desenhos precisam ser submetidos a processos periódicos de limpeza, que custam muito caro. Ela sabe que a preservação dos papéis em salas climatizadas é importante. Mas nunca quis repassar o acervo a universidades.
“A obra tem um valor incalculável para a minha família. E eu estou cansada de ouvir histórias sobre acervos que sumiram de bibliotecas e centros de memória. Não quero correr o mesmo risco”, afirma.
A professora sonha, sim, com a publicação integral da obra. Hoje, explica, os arquivos brasileiros possuem, impressos, alguns daqueles desenhos e trechos de relatos. Foram reproduções autorizadas por seu pai, no passado.
Ela espera encontrar patrocinadores para a publicação. Mas que ninguém sonhe em levar embora a caixa com os papéis originais. “Quando eu morrer, talvez meu filho se interesse em doar. Enquanto eu estiver viva, no entanto, a obra não sai da minha casa.”
Um aventureiro. Antoine Hercules Romuald Florence nasceu em Nice, na França, em 1804. Quando tinha 16 anos, aficionado por desenho, viajou até Antuérpia, na Bélgica, para viver de desenhar retratos. Como não conseguiu trabalho e não tinha trabalho, voltou a pé para Nice.
Dois anos depois, Florence se alistou na marinha francesa, com o único desejo de conhecer o mundo. Quando conheceu o Rio, não quis mais sair do Brasil. Arrumou emprego no comércio e só deixou o cargo ao ler o anúncio do jornal, que procurava desenhista para a expedição.
De 1826 a 1829, ele navegou pelos rios brasileiros. No ano seguinte, estava morando na Vila de São Carlos (futura Campinas).
Ele se casou com Maria Angélica Álvares Machado, com quem teve 13 filhos, e mais tarde, com Carolina Krug (com quem teve outros sete).
Em Campinas, Florence se entregou a pesquisas que o tornaram um dos pioneiros da fotografia mundial. Ali na casinha da atual Rua Barão de Jaguara, imediações da Matriz do Carmo, ele fez os primeiros experimentos fixando imagens com a luz solar.
Em 1833, ele provou que era possível alcançar o objetivo usando nitrato de prata, técnica adotada pelos laboratórios fotográficos mundiais até o recente advento da fotografia digital.
Mas seu invento, a photografie, apareceu na hora errada, no lugar errado. Seus conterrâneos, os franceses Louis Daguerre e Joseph Niépce, entraram para a história mundial como os inventores oficiais da tecnologia.
É um tema polêmico. Para os parentes, se Hércules Florence morasse na Europa, ia ser cultuado até hoje como gênio. De fato, tudo que se produzia no Brasil não chegava ao outro lado do oceano.
Uma espécie de “Santos Dumont” das imagens, Florence morreu sem ter o reconhecimento mundial de seu talento. As pessoas interessadas sem saber detalhes sobre o raro diário da Expedição Langsdorff pode entrar em contato com Tereza Cristina pelo e-mail tcflorence@uol.com.br
Fonte: 24 HorasNews




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