Belém: uma cidade mais quente que o normal
Enviada em 31 de março de 2008 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
Superlativos não faltam: O Brasil é o país mais diverso do planeta, com seis regiões naturais: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampas; a maior das florestas tropicais do mundo, a Amazônica, tem a maior parte de sua área situado em solo nacional; o país tem o maior sistema de água doce do planeta - a bacia hidrográfica do Amazonas; além de abrigar a maior savana da América do Sul, o Cerrado.
Mas o Brasil também é o país que mais perde biodiversidade, com cerca de 30% do território nacional alterado devido à ação humana; tem na Mata Atlântica a floresta mais ameaçada das Américas e também a savana mais ameaçada, o Cerrado. Nesse cenário já são pelo menos 700 espécies ameaçadas de extinção. E o que acontece em Belém? A cidade sofre as conseqüências da perda da cobertura vegetal.
As conseqüências diretas do desmatamento para a população de Belém; o planejamento de centros urbanos na Amazônia; os efeitos da perda da biodiversidade do país e o caso do etanol foram alguns dos temas tratados no último dia do Ciclo de Palestras que integrou o programa da Festa Anual da Árvore realizada pelo Museu Goeldi.
O último dia de debates trouxe o Dr. Leandro Ferreira, da Coordenação de Ciências da Terra, do Museu para falar sobre “A Perda da Cobertura Vegetal de Belém e suas Conseqüências para a População”. Ferreira usou diversos mapas dos anos de 1984 a 2004 para ilustrar como era a situação das áreas verdes na Região Metropolitana de Belém (RMB) – Belém, Ananindeua, Benevides, Marituba e Santa Bárbara – e como se encontram hoje.
Dentre as funções da vegetação no espaço urbano, segundo Ferreira, está o fato de a cobertura vegetal ser elemento fundamental para a composição atmosférica, pois mantém o equilíbrio solo-clima-vegetação, suaviza os níveis de ruído, além de ter valor estético, por servir como ornamento natural.
“Com a perda da vegetação, todas essas vantagens e benefícios deixam de existir e a população começa a sofrer”. Segundo o pesquisador é com o desmatamento que surgem os bolsões de calor - áreas de grande concentração de edificações em concreto e muito asfalto. Aí se acumula o calor, pois os prédios impedem a circulação do vento que vem da Baía do Guajará. Em locais onde a construção civil precisa ser controlada, não há fiscalização. Há, isso sim, uma supervalorização dos terrenos e um movimento intenso de especulação imobiliária, que só degrada o meio ambiente. O Projeto Portal da Amazônia na orla de Belém autoriza a construção de prédios de até sete metros, cota essa que se aumentar, prejudicará ainda mais o centro da cidade já encurralado e sem vento.
Para evitar que mais e mais vezes esses fatos passem despercebidos, Ferreira a exemplo de outro conferencista, o Dr. Netuno Leão, do Imazon, lembrou a importância dos parques urbanos. Belém tem oficialmente cinco parques urbanos: Parque Ambiental do Utinga, Parque Ecológico do Médice, Parque da Ilha do Mosqueiro, Museu Paraense Emílio Goeldi e Bosque Rodrigues Alves. O Parque do Utinga, por exemplo, mantém os lagos Bolonha e Água Preta, que abastecem mais de um milhão de pessoas com água dos seus mananciais, mas estão cada vez mais ameaçados pela expansão dos bairros e das construções imobiliárias do entorno.
O desafio do planejamento - Depois dos alertas feitos pelo Dr. Leandro Ferreira, a professora da Universidade Federal do Pará, Ana Cláudia Cardoso, falou sobre “Os Desafios do Planejamento Municipal na Amazônia”. Ela mostrou que com a intensificação da globalização e da crise ambiental, está ocorrendo um aumento excessivo das áreas urbanas e a diminuição da qualidade de vida. As pessoas buscam cada vez mais morar nos centros urbanos dos municípios, mas sem as necessárias condições. “Com a falta de planejamento de redes urbanas, esses problemas se intensificam cada vez mais,” diz ela ao dar exemplos de cidades como Marabá e Parauapebas, que possuem imensa extensão territorial, e um aglomerado de pessoas concentradas apenas nos centros dos municípios.
Além disso, a professora fez uma projeção de como estão de formando as cidades do século XXI: cidades dentro de cidades; com diversas periferias; valorização de obras de espaços de entretenimento, em detrimento de melhorias em áreas periféricas, para melhorar a qualidade de vida; embelezamento de partes da cidade, com a construção de orlas, que servem de “frentes de cidades”. Segundo ela, para evitar tais práticas, é importante que se busque o fortalecimento da identidade local como forma de buscar a sustentabilidade nos grandes centros urbanos.
A perda da biodiversidade brasileira - Esse foi o tema da palestra que encerrou os debates promovidos durante a Festa Anual da Árvore no Museu Goeldi. O Dr. José Maria Cardoso da Silva, da Conservação Internacional (CI), falou sobre a “Conservação da Biodiversidade em um Mundo em Transformação: o exemplo do etanol brasileiro”.
Ao expor os principais problemas ambientais no Brasil como a perda da diversidade ecológica, Cardoso falou sobre serviços ecológicos devido a mudanças no padrão do uso do solo; atividades antrópicas – intereferência humana - que interferem diretamente na natureza e provocam mudanças climáticas globais. Dos ecossistemas nacionais só restam 7% da vegetação natural da Mata Atlântica, e do Cerrado já são 60% de área devastada, por causa de plantações de soja, da pecuária extensiva e de ocupações.
Como frear a perda da biodiversidade? – Para Cardoso, instituir mais Unidades de Conservação (UC’s) públicas ou privadas; estimular a criação de reservas legais, através da regularização de propriedades privadas; criar áreas de proteção permanente em lugares estratégicos; conceder mais terras aos indígenas, que protegem e não degradam a natureza, são algumas das estratégias para conter as já muitas perdas.
A conservação da biodiversidade pode ser sinônimo de vantagem competitiva do etanol brasileiro, pois ele emite menos carbono - é o chamado combustível verde. Mas se não existirem planos para a produção do etanol, ele pode aumentar os problemas ecológicos, alerta Cardoso. Foram criadas então 12 Áreas Importantes para a Expansão do Etanol, as AIE’s, que abrangem mais de 800 mil quilômetros do território nacional, selecionadas com base em dados climáticos, declividade e logística. A Amazônia e o Pantanal não fazem parte dessas áreas, pois não é interessante dizer que o etanol brasileiro está sendo produzido através da devastação desses ecossistemas. O que se fez foi o aproveitamento de áreas já desmatadas, presentes mais no Cerrado e na Caatinga. Mas 9 dessas 12 AIE’s já foram modificadas mais do que o mínimo legal, denuncia o pesquisador.
Nenhuma das AIE’s dispõe de sistema de conservação formal e não será sustentável ao longo do tempo. Para reverter o quadro pessimista, Cardoso diz que é necessária a criação de um plano de sustentabilidade financeira para que a conservação seja garantida. Com investimentos em conservação e manutenção dessas áreas da ordem de 8% a 16,5% do valor que será investido na produção do etanol até 2025 – um total de 5 bilhões de dólares ao ano, existe a possibilidade de se gerar emprego e renda para moradores locais.
Nos três dias de evento o auditório do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi esteve lotado. O público era composto por estudantes, professoras, profissionais da área de turismo e demais interessados pelo tema.
Fonte: Agência Museu Goeldi




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