Ufopa: Em busca da integração Pan-Amazônica

Enviada em 30 de agosto de 2008 – Imprimir esta matériaEnviar para um amigo

Situada no centro da Pan-Amazônia, Universidade enfatizará interdisciplinaridade

Ufopa: Em busca da integração Pan AmazônicaPhD em Geofísica pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Estados Unidos, o físico paraense José Seixas Lourenço preside a comissão encarregada de implantar a primeira universidade federal no interior da Amazônia e a terceira no Estado do Pará, a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), com sede em Santarém. Nesse retorno à administração acadêmica, o ex-reitor da UFPA acredita que a localização privilegiada do Campus de Santarém, no centro da Amazônia continental, pode favorecer a concretização de um antigo sonho acalentado pelos pesquisadores da Pan-amazônia: a criação de uma verdadeira “Universidade da Integração Amazônica”, aberta aos países pan-amazônicos.  (José Seixas Lourenço (à direita) preside a comissão que vai implantar a Universidade Federal do Oeste do Pará. Foto: Walter Pinto)

Compete à Comissão, presidida por Seixas Lourenço, realizar estudos e atividades para o planejamento institucional, organização da estrutura acadêmica e curricular, administração de pessoal, patrimônio, orçamento e finanças, visando a atender os objetivos previstos no Projeto de Lei de criação da UFOPA. A nova universidade surge a partir da junção do campus da UFPA em Santarém e da unidade descentralizada da UFRA no Tapajós. Para Seixas Lourenço, a UFOPA pretende ser uma universidade comprometida com a excelência acadêmica e com a relevância social. “Temos a pretensão de criar unidades multidisciplinares de pesquisa e de formação de recursos humanos (graduação, mestrado e doutorado) em grandes áreas temáticas, de significativa relevância socioeconômica, onde as ciências humanas e sociais se interconectem com as da natureza e as da tecnologia”, explica. Ele cita, entre as grandes áreas, os recursos aquáticos, os recursos florestais e agronômicos e os recursos energéticos e minerais.

Tendo a interdisciplinaridade do conhecimento como tônica, a UFOPA, segundo Seixas Lourenço, pretende romper com a departamentalização administrativa e burocrática das ciências e do conhecimento. Para atingir essa meta, não desconhece que será preciso usar a criatividade e realizar inovações metodológicas: “Temos consciência de que será fundamental desenvolver mecanismos inovadores para a atração e fixação na região de pesquisadores e técnicos de outros locais do Brasil e mesmo do exterior. Devemos explorar ao máximo as oportunidades de cooperação científica e tecnológica, nacional e internacional”. É neste contexto, e em função da localização privilegiada da UFOPA, que Seixas Lourenço propõe tornar realidade o sonho de instalar uma universidade da integração amazônica.

Em defesa do patrimônio natural e cultural

A nova universidade trará benefícios para o Estado do Pará ao ampliar a oferta de ensino superior e gerar conhecimentos científicos e tecnológicos necessários ao desenvolvimento e à prosperidade para cerca de um milhão de habitantes da região oeste do Pará, que tem Santarém como principal pólo urbano. Para Lourenço, a superação do desafio do desenvolvimento da região deverá vir por meio de um efetivo investimento em educação, ciência e tecnologia, “de modo a contribuir, de forma estratégica, para a defesa do patrimônio natural e cultural da Amazônia, gerando um desenvolvimento sustentável, fator preponderante na manutenção da soberania nacional da região, com repercussão positiva ao país e à comunidade internacional”.

O papel fundamental da UFOPA será a formação de profissionais qualificados, em nível de graduação e pós-graduação, em especial nos setores diretamente relacionados às vocações da região (pesca, fruticultura, recursos florestais, energéticos e minerais) assim como, posteriormente, na área do turismo, com foco no ecoturismo. Em relação ao setor privado, a UFOPA buscará interação mais efetiva por meio do Parque Tecnológico do Tapajós, criado pelo governo do Estado, sob coordenação da Secretaria Estadual de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, a ser instalado junto à Universidade. De acordo com Seixas Lourenço, o Parque Tecnológico é um instrumento de política econômica, indutor do desenvolvimento regional, propiciando a articulação de unidades de pesquisa científica e tecnológica com pequenas e médias empresas de base tecnológica, bem como a captação de recursos financeiros, públicos e privados, e incentivos fiscais para a implantação de atividades de pesquisa e desenvolvimento nas empresas.

Modelo multicampi universaliza oportunidades

Desenvolvendo atividades numa área de mais de 500 mil km² (equivalente a mais de duas vezes a área do Estado de São Paulo) com abrangência de vinte municípios, a Universidade Federal do Oeste do Pará adotará o formato multicampi, que possibilita a universalização das oportunidades de formação qualificada à maioria das micro-regiões e municípios. A formação e a fixação de competências em diferentes locais contribuirão para reduzir as assimetrias regionais. Segundo Seixas Lourenço, o formato permitirá a exploração do potencial sócio-ambiental de cada subespaço da região do oeste do Pará, servindo, ao mesmo tempo, de pólo integrador desses subterritórios.

A UFOPA já nasce como universidade de médio porte, formada da junção das instalações e dos recursos humanos e materiais da UFPA na região (Campus de Santarém e núcleos de Itaituba, Oriximiná e Óbidos) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Unidade Descentralizada do Tapajós). O núcleo de Óbidos será fortalecido, podendo ser ponto focal de alguns programas na área científica e cultural, bem como receber cursos de graduação dos campi da UFOPA. “No futuro, dada sua importância na área das letras e das ciências, a cidade de Óbidos poderá tornar-se sede de um novo campus da nova universidade”, revela Seixas Lourenço.

Impulso à modernização e inclusão social

Segundo o presidente da Comissão de implantação da UFOPA, os novos cursos a serem criados suprirão deficiências e mesmo ausência de nível superior em municípios do oeste do Pará. Tal situação tem impedido, historicamente, a formação e qualificação de profissionais para atuarem em áreas diretamente vinculadas ao processo de aproveitamento sustentável dos recursos naturais, que tem sido objeto de demandas por parte do setor público e do setor profissional.

“A expansão da rede de ensino superior pública e a conseqüente ampliação do investimento em ciência e tecnologia irão promover a inclusão social e terão um significativo impacto no processo de desenvolvimento regional”, avalia Seixas Lourenço. “A criação da UFOPA possibilitará um novo impulso à modernização e ao desenvolvimento sustentável da região, historicamente marcada pelo extrativismo vegetal e mineral e pelo baixo índice de desenvolvimento humano, além de resgatar um rico acervo de tradições culturais”.

Indagado se a UFOPA não representaria uma perda para UFPA e UFRA, Seixas Lourenço justificou da seguinte maneira sua discordância em relação a essa hipótese: “A própria UFPA, com a participação da UFRA, liderou o processo visando à criação da UFOPA. O reitor Alex Fiúza de Mello teve, e ainda tem, um papel da maior relevância, junto ao ministro da Educação, com o apoio da governadora do Estado, e dos parlamentares do Pará, visando à implantação da nova universidade. O reitor da UFRA, Marco Aurélio Nunes, nascido no interior de Monte Alegre, tem se mostrado um grande entusiasta da nova instituição. A criação da UFOPA não representa perda nem para a UFPA e tampouco para a UFRA, muito pelo contrário. É como o filho que cresce e ganha sua autonomia, mas mantém laços permanentes com os genitores.”

Fonte: Jornal Beira do Rio/UFPA