Etnia Mura é tema de documentários lançados no Amazonas
outubro 21, 2008
Os cinco documentários contam a história da etnia que se dispersou pelo estado do Amazonas em aproximadamente 11 municípios
A memória da etnia indígena Mura é tema dos cinco dos documentários que serão lançados no sábado, 25, na aldeia Murutinga; no domingo, 26, na aldeia São Félix, e na segunda-feira, 27, no centro do município de Autazes, no Amazonas. Os trabalhos, dirigidos pelo documentarista Raoni Valle e também e pela Organização dos Professores Indígenas Mura (OPIM), fazem parte do projeto cultural “Documentação Audiovisual e Recuperação do Patrimônio Imaterial dos Pajés e Pearas Mura, AM, Brasil”, patrocinado pela Petrobrás com incentivo do Ministério da Cultura e com a parceria do INPA-Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, através do Núcleo de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais.
A memória social e a história oral da etnia indígena Mura, dispersa pelo estado do Amazonas em aproximadamente 11 municípios, foi o foco principal dos filmes. A etnia está hoje bastante fragmentada e difusamente distribuída nas lembranças, discursos, práticas e crenças de velhas ceramistas, rezadeiras, parteiras, tuxauas e benzedores.
Desde a Constituição de 1988 vem sendo desencadeado um processo de revalorização da identidade indígena, ressignificação e redescoberta do passado. Nos Mura esse processo levou à organização política de suas lideranças e ao delineamento do projeto político-pedagógico diferenciado dos professores indígenas, bastante intenso nas aldeias do município de Autazes, no baixo rio Madeira, AM (120 km de Manaus).
Valorização da cultura indígena
De acordo com raoni, um dos pontos centrais do projeto foi a revalorização do passado e a preocupação com a documentação da história oral e da memória social de certos personagens portadores de um conhecimento diferenciado sobre esse passado, contadores de histórias por excelência, matizados nas figuras dos anciães em geral, entre os Mura chamados de Pearas sendo alguns também Pajés.
Basicamente, os filmes compõem quatro linhas temáticas definidas pelos professores indígenas a partir dos eixos mais explícitos dentro do acervo documentado, o que resultou em cinco documentários diferentes, são eles:
1-A Pajelança Mura (duração aprox. 55 min): “A Pajelança Mura”, trata-se da reunião de material produzido a partir de entrevistas com 10 pajés da etnia Mura que apresentam de diversas maneiras, o cotidiano dos Pajés, curadores, rezadores, parteiras, benzedores. Suas práticas e crenças.
2–Gíria e Língua Geral (duração aprox. 40 min.): “Gíria e Língua Geral” apresenta uma compilação de todas as referências à língua indígena que emergiram nos depoimentos. Dois personagens se destacam dona Francisca do Pantaleão e seu Barão do Guapenú, por apresentarem longas seqüências faladas em dialetos de Língua Geral e Tupi, depois traduzidas para o Português.
3–Memória, História e Meio Ambiente (duração aprox. 55 min): “Memória, História e Meio Ambiente” reúne mais de 40 depoentes, entre pajés, lideranças, pearas e pessoas comuns legitimados nas aldeias como contadores de estórias e de Histórias. Trata-se de um panorama geral de elementos diversos constituintes da memória social e história oral dos Mura.
4–Visagens, Misuras e Encantados (duração aprox. 50 min): “Visagens, Misuras e Encantados” é o mundo fantástico no imaginário étnico e popular. A expressão da cultura do fantástico no universo mítico, religioso e extraordinário dos Mura e do caboclo amazônico em geral.
5–Dirijo(duração aproximada 12 minutos): “Dirijo” – 12 minutos de duração traça um panorama do antigo e extinto uso de Cannabis Sativa entre os anciães Mura de outrora, quando os velhos que hoje nos falam eram apenas curumins. Uma ilustração da passagem do tempo, das mudanças dos costumes e das relações sócio-ambientais.
Produção
Para realizar a produção dos documentários as equipes percorreram, entre agosto e setembro de 2007, 10 aldeias onde colheram depoimentos de 60 pessoas com idades entre 62 e 101 anos, totalizando aproximadamente 100 horas gravadas em três câmeras. Além desse material obtido na expedição principal, outras 6 expedições curtas de reconhecimento e pré-produção transcorridas entre junho e agosto de 2007 foram dirigidas para 7 aldeias das 10 totalizadas.
Desde o primeiro momento os professores indígenas integraram a equipe técnica do projeto, eram os articuladores, produtores de campo e condutores da estratégia de abordagem e da linha discursiva adotada nas entrevistas, bem como em alguns momentos operadores de câmera. “Objetivávamos garantir o máximo da ingerência deles na elaboração desse material dentro da concepção do projeto que, de fato, os via como diretores de campo”, explica Raoni.
Para raoni, no caso deste projeto, e do que foi feito em campo, há um diferencial fundamental que, embora adotando alguns procedimentos da antropologia visual, não objetiva a elaboração de um filme de exploração ou de divulgação, mas sim de material didático audiovisual para os próprios índios, em suas próprias escolas. “Talvez algo que poderíamos apelidar de um “filme de resistência”, afirma.
Além do lançamento dos documentários, no sábado, 25, será lançado o site do projeto: www.opin.com.br.
Os Mura
De acordo com a pesquisa realizada para produção dos documentários, os Mura são assinalados na historiografia colonial na primeira metade do século XVIII como índios contatados pelas frentes missionárias jesuíticas na margem esquerda (oeste) do rio Madeira. Sendo um dos primeiros registros oficiais feito pelo Jesuíta Bartolomeu Rodrigues em 1714 (Menéndez in Da Cunha, 1996), já na segunda metade do mesmo século aparecem na historiografia como arredios e resistentes às frentes de expansão econômica da colônia que navegavam o rio Madeira na conexão entre as regiões Centro-Oeste e Norte. São descritos por diversas fontes como índios de corso, adeptos da pirataria, da pilhagem e da guerra por escaramuças e emboscadas (Amoroso in Da Cunha, 1996).
Frearam, de certa forma, o empreendimento colonial por quase 100 anos, até uma suposta rendição em massa da etnia entre 1784 e 1786 (Nimuendajú, 1925), porém reaparecendo na Cabanagem (Moreira Neto, 1988), como uma das alavancas motrizes do turbilhão revoltoso, em ebulição até os anos de 1836-1840. Desarticulam-se nesse interlúdio para serem redescobertos e “loteados” pelo SPI nas primeiras décadas do século XX.
Notícias da Amazônia (com informações assessoria)



