No Brasil, Hepatite Delta é quase restrita à Amazônia Ocidental, afirma estudo
novembro 19, 2008
Vírus é caso raro no mundo, pois é parasita de outro vírus da Hepatite B. No Acre, e possivelmente em Rondônia, cerca de 20% dos portadores de hepatite B tem também Hepatite Delta
Na última semana, médicos pesquisadores da Hepatite Delta - ou Hepatite D - comemoraram a decisão do Ministério da Saúde que passou a incluir a doença nas discussões das diretrizes terapêuticas. Para o médico hepatologista e professor livre-docente da Universidade Federal da Bahia - UFBA, Raymundo Paraná, que estuda há mais de oito anos o vírus, a doença é talvez a mais negligenciada pelas autoridades brasileiras.
Na chamada Carta de Salvador, o médico escreveu que no Brasil o vírus é encontrado, principalmente, na região da Amazônia Ocidental, nas comunidades do alto Purus, Vale do Javari, do Juruá, do Madeira. Ele também alcança intensamente Rondônia e todo o Acre, porém também é endêmico no Purus e em várias localidades do estado do Amazonas. Outros focos têm sido descritos em Mato Grosso e no Pará.
Segundo Paraná, na Amazônia Oriental, existem surtos específicos e localizados - como em Belém, no Pará -mas não disseminados como é no Acre, em Rondônia e em partes do Amazonas. Para o médico, embora ainda não identificado, não há dúvidas de que existe um fator regional que favorece maiores níveis de prevalência da doença.
Em 1999, através de uma cooperação entre o estado do Acre, o Instituto de Pesquisa Médica da França, a UFBA e com a Universidade de Brasília - UnB, foi possível se avançar no conhecimento sobre o vírus. O senador Tião Viana (PT-AC), em sua tese de doutorado, avaliou a população de 12 municípios de seu estado e constatou que a prevalência da hepatite D na região é sem precedentes no mundo. Cerca de 20% dos portadores de hepatite B tem também Hepatite Delta, taxa que na maioria das cidades brasileiras não chega a 1%.
Tião Viana identificou ainda que a Hepatite Delta é mais comum em populações de índios do que em não-índios, e que está mais presente naqueles que vivem na floresta amazônica do que nos que vivem nas cidades amazônicas. Uma constatação é que, todos os anos, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) registra a morte de índios e bibeirinhos por surtos de hepatite fulminante B e D.
Vírus
Regionalmente o vírus delta tem cinco genótipos diferentes, que seriam cinco raças do vírus. Existe um tipo que predomina no Oriente Médio, outro na Europa e nos Estados Unidos, e o que existe na Amazônia: o genótipo III. Esse é o mais diferente de todos, pois não foi introduzido na região, e sim criado há muito anos, antes dos colonizadores.
O vírus também é o mais agressivo de todos, pois causa uma hepatite aguda, junto com a hepatite B, que tem mais chances de mortalidade do que uma hepatite só pelos vírus B. “Ele tem uma chance de 20% de causar uma forma grave de hepatite chamada de fulminante”, explica Paraná.
Prevenção
O médico defende que, se for feito um trabalho forte de prevenção da hepatite B - por meio de vacinas e também de educação sexual - conseqüentemente se estará prevenindo também a Hepatite D. Ele sugere que o governo faça campanhas de vacinação excessivas nas regiões endêmicas. “O estado do Acre, por exemplo, realizou uma campanha onde mais de 90% da população foi vacinada. A ação ajudou muito, mas é necessário que seja repetida com uma freqüência de 3 a 4 anos”, afirma.
Nos estudos realizados por ele e outros pesquisadores, ficou constatado que o Governo “nunca tocou no assunto da hepatite D nas diretrizes terapêuticas”. A explicação está no fato de que a Hepatite Delta chamou muito a atenção na década de 70 e 80 na Europa e nos EUA nos grupos de risco (usuários de droga venosa). “Quando a Europa e os EUA intensificaram o trabalho de vacinação nos grupos de risco e nas regiões endêmicas a doença praticamente desapareceu. Então, como esses países detêm um maior financiamento em pesquisa do mundo, as investigações ficaram paradas”, diz Paraná.
As autoridades européias retomaram as suas preocupações com o vírus diante do fato de imigrantes da Turquia, Rússia, Romênia, Bulgária e Hungria estarem levando de volta a Hepatite D à Europa Ocidental, e com força total. “Por isso os estudos foram retomados”.
Reivindicação antiga
A Carta de Salvador foi escrita recentemente, a partir da data em que Paraná tomou conhecimento de que o Ministério da Saúde priorizaria a Hepatite Delta. “Era uma reivindicação antiga, que não poderia continuar sendo negligenciada no Brasil. Nós devemos ter recursos para responder as questões sobre a doença como: Por que o vírus é tão intenso na região? Como ele é transmitido?, além de outras questões”, defende. E faz mais uma provocação: “Não se pode esperar que estrangeiros respondam a essas questões. Está mais do que na hora de assumirmos aqui no Brasil a resposta a essa demanda, e o Ministério tem a obrigação de fazer isso”.
Notícias da Amazônia (por Camila Fiorese)



