Fórum Social expõe “feridas” de Belém

Enviada em 28 de dezembro de 2008 – Imprimir esta matériaEnviar para um amigo

A um mês do evento internacional, a cidade ainda busca soluções para os problemas

A falta de segurança, a confusão no trânsito e as deficiências no sistema de transporte público são alguns dos mais graves problemas de Belém. Em 2008, não foi diferente. Sobraram reclamações da população da capital paraense. Na virada do ano, o poder público vai ter que se preparar para um desafio e tanto: o Fórum Social Mundial. De 27 de janeiro a 1º de fevereiro, cerca de 80 mil pessoas vão se juntar aos mais de dois milhões de habitantes da Região Metropolitana de Belém. Vem gente de todos os cantos do planeta. O objetivo é discutir a sustentabilidade do mundo globalizado, mas o que deve se destacar mesmo são os problemas da maior cidade da Amazônia. Um deles, por exemplo, é falta de leitos na rede hoteleira para hospedar tanta gente. A um mês da abertura do Fórum Social Mundial de 2009, a cidade reflete sobre a grandiosidade do evento.

O esquema de segurança, por exemplo, ainda necessita de ajustes. A informação é do Comando Geral da Polícia Militar, quando questionado sobre o contingente de policiais que será mobilizado durante o período de 27 de janeiro a 1º de fevereiro. A PM anunciou ainda que, no próximo dia 5, fará uma breve apresentação sobre as ações policiais programadas para o evento, mas avisa que não dará informações sobre o planejamento completo, alegando que elas podem comprometer todo o esforço.

Em 2002, primeiro ano do Fórum no Brasil, o site oficial do evento divulgou que Porto Alegre (RS) dobrou o número de policiais militares que faziam patrulhamento nas ruas da cidade e na época eram esperadas apenas dez mil pessoas. Foram 1,3 mil homens nas ruas, dos quais 210 PMs e 23 veículos cedidos por diversos municípios do interior. No Pará, contudo, é quase impossível imaginar o deslocamento de PMs de outras cidades, onde o policiamento já é ruim, para a capital. Peritos em explosivos e especialistas em gerenciamentos do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) permaneciam de plantão na cidade gaúcha e os quartéis não tiveram expediente administrativo, tendo seu contigente deslocado para o policiamente ostensivo.

Segundo Aldalice Oterloo, da Comissão de Coordenação do Fórum de 2009, ‘todas as forças de segurança pública estão trabalhando em harmonia, mapeando áreas de maior convergência e concentração de hospedagem e cerca de 4.800 agentes de segurança das Polícias Civil, Militar, Federal, Rodoviárias Federal e Estadual devem trabalhar’. O número, diz Aldalice, é apenas uma estimativa, que não deve ser alterada drasticamente. Uma matemática rápida atesta que enquanto o número de participantes aumentou em oito vezes, o de policiais só foi multiplicado por três.

Ela lembrou que antes do Fórum, oito fóruns estão marcados e que os participantes devem permanecer na cidade. São eles: o Fórum Mundial de Juízes, de Saúde e o de Teologia. Para ela, a especificidade de Belém está no acesso de participantes pelos rios, para os quais, diz a coordenadora, serão deslocadas duas lanchas da Marinha Brasileira.

Ctbel garante que vai evitar ‘caos’ no trânsito e transporte público

Se na segurança pública os números ainda não podem ser revelados, no trânsito a Companhia de Transportes do Município de Belém (Ctbel) já dá algumas garantias, entre elas a de que a população da capital paraense não vai precisar disputar espaço nos ônibus urbanos com os mais de 80 mil participantes esperados. O planejamento está sendo fechado e, segundo o diretor de transporte da Ctbel, Walter Campos, ‘os planos estão compatíveis com a demanda’.

A avenida Perimetral, batizada de corredor do Fórum Social, vai ganhar ordenamento de transporte de cargas, que só poderá ser feito, em extrema necessidade, em horários específicos e ainda estacionamentos para as caravanas de ônibus. Para fiscalizar o trânsito, a Ctbel promete um aumento de 120% no quadro de agentes de trânsito. Durante o Fórum, o total vai chegar a 220.

Além da Perimetral e arredores das universidades que vão ser a sede da programação do evento, o contingente será distribuído em ações de fiscalização permanente às proximidades do Aeroporto Internacional de Belém, Hangar Centro de Convenções da Amazônia, complexo do Ver-o-Peso e em vias de escoamento do Centro da cidade, como as avenidas Nazaré, Magalhães Barata e Governador José Malcher.

Quanto ao número de ônibus, os participantes do Fórum vão poder contar com 40 coletivos especiais, em horário regular, para trajetos específicos para os lugares onde serão realizadas as atividades. São eles: Aeroporto/Hangar/UFPA/Ufra; Hangar/Ver-o-Peso/ Centro Hoteleiro e Mosqueiro/UFPA/Ufra. Mosqueiro foi definido como um ponto a ser atendido pela linha de transporte em razão da grande oferta de hospedagem em casas no local.

Os ônibus que já fazem linha para as universidades federais poderão ter um aumento de até 50% na frota. Hoje, uma média de 160 coletivos de várias empresas fazem o trajeto. As demais linhas, promete a Ctbel, devem operar com frota máxima. Além do transporte terrestre, será disponibilizado o serviço fluvial, com um número ainda indefinido de barcos, para as seguintes rotas: Outeiro-UFPA-Ufra; Mosqueiro-UFPA-Ufra; Cotijuba-Icoaraci-UFPA-Ufra.

‘Ainda estamos com uma estrutura precária de transportes. Nos preocupamos tanto com os ônibus, mas o número de vôos para Belém também é insuficiente. Estamos trabalhando desde julho do ano passado para dar condições dignas para o Fórum. Tivemos alguns impedimentos nas obras por conta da eleições, mas a expectativa é que saia tudo como o planejado’, diz Aldalice.

Faltam cerca de dez mil leitos para hospedar os visitantes da cidade

A hospedagem dos participantes do Fórum também não está totalmente garantida. Dez mil leitos ainda precisam ser disponibilizados para os visitantes. Das mais de 80 mil pessoas que estão sendo esperadas para o evento, apenas 70 mil possuem um local reservado para se acomodar durante a realização do Fórum. Os leitos estão espalhados pela Região Metropolitana de Belém (RMB), entre hotéis, escolas, clubes, sítios e casas de veraneio. Em Mosqueiro, por exemplo, são seis mil leitos disponíveis para serem ocupados pelos participantes. O mesmo número será oferecido só em Belém, entre residências e apartamentos.

Segundo Aldalice Oterloo, três tipos de hospedagens foram pensadas para acomodar os visitantes: a alternativa, a familiar e a convencional. A primeira consiste na liberação de toda a casa para os hóspedes; seguida pela familiar, em que apenas os quartos da residência serão alugados e a convencional, que será feita em clubes, escolas e a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).

Aldalice explica que as famílias que irão hospedar os participantes do Fórum tiveram que passar por uma seleção rigorosa. Atualmente, são cinco mil hospedagens familiar garantidas no FSM, sendo que, no total, sete mil se inscreveram para oferecer o serviço em suas casas. ‘Houve um corte considerável durante a seleção porque muitas famílias não estavam adequadas para receber pessoas de fora. Então preferimos cortar para não causar problemas para os visitantes’, diz Aldalice.

Para analisar as condições das famílias inscritas, o comitê de organização do evento realizou várias visitas no decorrer deste ano em todos as casas que tinham interesse em alugar os quartos. Os critérios utilizados para escolha das residências estão relacionados à problemas com a infra-estrutura do local, condições higiênicas, acessibilidade e ao número de pessoas que moram na casa. ‘Muita gente ia oferecer um quarto para alugar, sendo que o restante das pessoas da casa iriam ficar amontoadas em um outro quarto’, completa. A diária, por pessoa, de um quarto simples, ou seja, apenas com um ventilador, uma cama de solteiro e um banheiro próximo ao quarto, custará R$ 27. Já o quarto que possui ar-condicionado e banheiro interno (suíte) custará aos visitantes R$ 38 por dia.

Cerca de 13 mil leitos foram disponibilizados nas escolas públicas e particulares da RMB. Os participantes que irão ficar nessas instituições terão que pagar, apenas para dormir, R$ 5 por dia e R$ 10 se optar pelo café da manhã. Ao todo, são 40 escolas estaduais e nove municipais. Os cerca de 2.500 indígenas, de 38 etnias da Amazônia brasileira que já estão confirmados para o evento, ficarão hospedados em escolas estaduais localizadas em Ananindeua.

Uma rica experiência cheia de cultura e mobilização política. É assim que a universitária Marcela Rodrigues, 22 anos, define sua atuação no FSM 2009. Tudo isso porque ela vai hospedar em seu apartamento, localizado no bairro do Marco, quatro estrangeiros, entre argentinos e colombianos. A iniciativa de hospedar os turistas partiu de seu envolvimento com uma organização política que também facilita o contato com pessoas de outros Estados e países que desejam participar do evento. Mesmo não estando escrita pela organização do evento para hospedar os participantes, Marcela afirma que eles serão bem recepcionados.

A universitária mora apenas com a mãe e o irmão mais velho, que terá que passar as noites na casa da namorada para poder ceder seu quarto aos futuros hóspedes. O apartamento, que possui três quartos - sendo uma suíte -, será alugado por R$ 500 por cada visitante. O preço, segundo a universitária, é equivalente à estrutura oferecida para os estrangeiros. ‘Estamos cobrando esse valor porque eles terão conforto garantido aqui em casa. Ar-condicionado, televisão nos quartos, chuveiro com água quente e um café da manhã reforçado fazem parte do pacote’, garante.

Outro tipo de hospedagem ajudará a completar o restante dos leitos que ainda estão em falta. Mais de seis mil pessoas de municípios do interior do Pará e de outros Estados irão dormir na própria embarcação que viajaram.

O presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado do Pará, Eduardo Boullosa, afirma a rede hoteleira da capital irá disponibilizar apenas seis mil leitos - do total de oito mil - por conta dos hóspedes fixos que os empresários já possuem. ‘Não podemos ficar à mercê do evento. Temos que garantir os serviços para os clientes que há muito tempo visitam a cidade neste período do ano’, frisa Boullosa.

Fonte: O Liberal