Pesquisadora conta história do povo Ka’apor em documentário
Enviada em 28 de abril de 2009 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
A história da luta pela terra, os conhecimentos indígenas sobre a floresta e a instalação de viveiros para a produção de mudas das espécies nativas são narrados por indígenas no documentário Jande Ka’apor ta ka’a ke mupyta ta – Os Ka’apor do Alto Turiaçu: Defendendo a nossa terra, de Claudia López, antropóloga do Goeldi
Agência Museu Goeldi - No início dos anos 90, a Terra Indígena Alto Turiaçú, onde vive o povo Ka’apor, no Estado do Maranhão, foi invadida ilegalmente por não indígenas, principalmente por fazendeiros e empresas madeireiras que instalaram serrarias ilegais, promovendo devastação de extensas áreas de florestas. O cenário era de acirradas lutas e conflitos entre indígenas e não indígenas pelo controle do território e muitos dos confrontos culminaram em mortes. Além disso, a exploração das riquezas da floresta e o comércio ilegal da madeira manteve-se como alternativa econômica para os dois grupos.
Como estratégia para promover o fortalecimento cultural e apoiar o povo Ka’apor na busca de alternativas que evitem a exploração ilegal de madeira, um projeto piloto foi montado pela antropóloga Claudia López, da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi, contando com o apóio do Setor de Lingüística da mesma coordenação. Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa previa capacitação de jovens indígenas, apoio às lideranças indígenas, uso de novas tecnologias de manejo florestal tais como a instalação de viveiros para a produção de mudas das espécies nativas mais devastadas pelos madeireiros.
A pesquisadora lembra que, no início, muitas pessoas da aldeia estavam envolvidas no comércio ilegal de madeira, pois muitos caminhões saíam das proximidades da aldeia transportando o material. “O objetivo era incentivar processos de reflexão e novas práticas sociais sobre uso e manejo de recursos florestais na comunidade, por meio da produção de mudas para enriquecimento da floresta econtribuir para a procura de fontes alternativas de renda”, lembra Claudia López, coordenadora do projeto.
Para isso, Claudia contou com a colaboração de Flávio Contente, engenheiro florestal que ministrou os cursos de capacitação. Ao todo, três oficinas - uso múltiplo da floresta, produção de mudas florestais e plantação de mudas - contribuíram para mostrar para todos o valor de se preservar a floresta. De outro lado, o projeto buscava recuperar a importância dos conhecimentos tradicionais Ka’apor sobre a floresta, enfatizando a importância cultural e socioambiental dos conhecimentos do povo Ka’apor. “Mesmo eles já sabendo disso, pela própria vivência ,era preciso reforçar que eles ganhavam muito mais com a floresta em pé do que vendendo a madeira”, afirma Claudia López.
O projeto iniciou em 2007 com um processo de reflexão sobre a importância da preservação da floresta. No mesmo ano foi ministrada a oficina de produção de mudas, onde o grupo realizou a montagem de um viveiro. Para Claudia López, “a intenção era mostrar o básico, construímos o viveiro com os materiais que encontramos na aldeia”. Já na última parte, em inícios de 2008, foi feita a primeira plantação de mudas. Ao todo, foram cerca de 2500 pés de diversas espécies produzidas na aldeia Xiepihu-rena. “Plantamos as espécies mais atingidas pelos madeireiros da região como o ipê-roxo, ipê-amarelo, jatobá, além de cumaru, andiroba, entre outras”, ressalta a coordenadora. O resultado prático final: “Formamos jovens multiplicadores que já estão incentivando a produção e plantação de mudas em outras aldeias”, lembra a pesquisadora.
Durante o período em que foi feita a pesquisa, um total de 18 meses, entre idas e voltas para a aldeia, e durante a realização do curso e das oficinas,foram feitas filmagens de todo o processo de produção e de plantação das espécies florestais na área da aldeia, além de documentar os principais aspectos socioculturais do povo Ka’apor. Ao final do trabalho de documentação, que contou com a colaboração de Ana Carolina Alves, da área de lingüística, foi produzido o documentário em DVD Jande Ka’apor ta ka’a ke mupyta ta – Os Ka’apor do Alto Turiaçu: Defendendo a nossa terra.
O documentário narra, a partir da fala dos próprios Ka’apor, a história da luta pela terra, mostrando também as tradições e os conhecimentos indígenas sobre a floresta. A pesquisadora buscou explorar o uso dos recursos naturais pelos Ka’apor na agricultura, caça, pesca e no artesanato, além de focalizar a história local da aldeia Xiepihu-rena e os conflitos vividos por eles, durante o período da invasão da terra indígena.
Para Claudia, documentar a cultura dos Ka’apor , o processo de luta pelo território e os recursos da floresta, além de alertar sobre os perigos do desflorestamento “é nosso dever de pesquisador”.
Serviço
Para adquirir o documentário Jande Ka’apor ta ka’a ke mupyta ta – Os Ka’apor do Alto Turiaçu: Defendendo a nossa terra basta entrar em contato com a pesquisadora Claudia López, da Coordenação de Ciência Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi, pelo telefone (091) 3217-6018 ou pelo email clapez@museu-goeldi.br.
Fonte: Agência Museu Goeldi (Por Silvia Leão)




Outras matérias
Mais notícias