Pororoca é cartão postal de São Domingos
Enviada em 21 de julho de 2009 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
O município de São Domingos do Capim começou a ganhar visibilidade na mídia regional, nacional e internacional a partir de 1999, ano da criação do Campeonato de Surfe na Pororoca. Desde então, com investimentos do poder público estadual, por meio da Secretaria Executiva de Esporte e Lazer (Seel) e da Prefeitura, vislumbrou-se a potencialidade do turismo no município e se iniciou a implementação de políticas para o desenvolvimento do setor.
Na dissertação “Nas ondas da pororoca: repercussões socioespaciais da atividade turística no município de São Domingos do Capim (Pará)”, orientada pelo professor Saint-Clair Trindade, Jorge Alex de Almeida Souza analisou os impactos das políticas de turismo sobre o espaço geográfico e o modo de vida local.
Lançando mão da dialética espacial, método teorizado por Lefebvre, Jorge Alex fez um percurso pelo passado do município para entender como o fenômeno da pororoca era vivido pela população capimense antes da atividade turística mais intensa e como ele se constitui no presente, a fim de vislumbrar possibilidades para o futuro.
Nessa volta à história de São Domingos do Capim, o pesquisador conta, com a propriedade de quem viveu parte da infância no local, que, antes da pororoca se tornar conhecida pelo campeonato de surfe, a população do município já possuía uma prática social sobre as ondas. “Há muito tempo, as pessoas têm uma relação de lazer com a pororoca, que é o “aparar” a pororoca; elas se jogam no rio. Existe até uma relação de poder, na medida em que enfrentar a onda é considerado uma prova de coragem”.
O turismo incorporou ao modo de vida local, essencialmente ribeirinho, experiências urbanas, modificando não só a paisagem do município, mas também o espaço das representações, ou seja, o uso, o lazer e as representações sobre a pororoca.
O rio, o barco e o trapiche: objetos significativos
É praticamente consenso entre os pesquisadores sociais da Amazônia que o modo de vida ribeirinho é composto de três objetos espaciais mais significativos: o rio, o barco e o trapiche.
O rio é o meio de circulação de mercadorias e pessoas, um espaço de comercialização e transporte, mas também um rico desenrolar de valores simbólicos, vivências e mitos. Nas palavras de Jorge Alex, “são os cursos fluviais que movimentam sonhos, desejos, encontros e modos de vida. É por meio dos espelhos d’água que o homem amazônida cria seu próprio mecanismo de usar o espaço e o tempo”.
O barco, por sua vez, além da dimensão material de veículo de transporte, contém aspectos culturais, como as cores, os nomes, o valor afetivo do dono pelo objeto. O trapiche é o espaço da convivência, do hibridismo dos modos de vida ribeirinho e urbano, onde se localiza o comércio, o embarque-desembarque, as práticas sociais, as conversas. Na dissertação, Jorge Alex defende que, além desses três elementos, São Domingos do Capim possui mais dois objetos espaciais que caracterizam a sua vivência ribeirinha: as igrejas e a pororoca.
“As igrejas e as capelas são referências porque são marcas da colonização feita pela Igreja Católica. Por exemplo: uma influência muito presente em São Domingos do Capim são as comunidades eclesiais de base, que ajudaram a formar várias organizações no município. Sem contar que a visão religiosa ainda se manifesta na explicação dos fenômenos, como a própria pororoca”, explica o pesquisador. Quanto à pororoca, Jorge Alex considera como um elemento ribeirinho marcante no município porque ela sempre faz parte da prática social dos capimenses, na atividade lúdica de “aparar” as ondas.
O modo de vida de São Domingos sofreu alterações socioespaciais com a implementação do turismo. O rio deixa de ser a única via de transporte, já que, para facilitar o acesso ao município, foi aberta e asfaltada a Rodovia PA-127. Ao lado dos barcos, outros tipos de embarcações e objetos se fazem presentes, como os veleiros, o jet ski e a própria prancha de surfe. O trapiche passa a ser um local de intensa hibridização de temporalidades, onde convivem práticas de estrangeiros e nativos que concebem e utilizam o espaço de diferentes maneiras.
A religiosidade local perde espaço no período do turismo, pois o fenômeno acontece próximo à Semana Santa. Por fim, a própria pororoca ganha um significado e um uso diferente após o início da atividade turística em São Domingos do Capim. O fenômeno adquire a dimensão de natureza exótica e passa a ser mundialmente conhecido e vendido como o lugar do surfe na Amazônia. Em vez de se “aparar” as ondas, agora se passou a surfá-las.
Eventos não tinham vínculo
Quando, em 1999, se iniciaram as políticas públicas de turismo em São Domingos do Capim, o poder e a população locais viam, na nova atividade, uma potencialidade e uma alternativa para a economia do município. Mas a falta de articulação entre as medidas municipais e estaduais e a forma excludente como o processo foi implementado contribuíram para que o turismo perdesse fôlego nos últimos anos.
Enquanto o Estado se voltava para a promoção do Campeonato de Surfe na Pororoca, a Prefeitura organizava o Festival da Pororoca. Os eventos aconteciam simultaneamente, mas sem vínculo efetivo entre si. Ou seja, os poderes públicos atuavam de forma isolada, não implementando uma política consistente de turismo.
Outro problema foi a relativa exclusão da população local das atividades turísticas. Os campeonatos eram pensados e executados para o público visitante e urbano. Os habitantes do município, no máximo, serviam de guias turísticos e comercializavam algumas mercadorias.
O resultado é que, em 2005, o turismo começa a perder força e, em 2008, a Seel tira o foco do Campeonato de Surfe do município para outras localidades paraenses. Para Jorge Alex, seria necessário investir em outros atrativos turísticos. “Eu posso citar o patrimônio histórico, o ecoturismo e o turismo comunitário, pois existem localidades com grandes potenciais naturais e culturais”. O maior desafio é implementar um turismo que contemple e inclua o modo de vida local.
São Domingos do Capim e a Pororoca
Município localizado no nordeste paraense, São Domingos do Capim tem como base econômica a pecuária, a produção e comercialização da farinha e o extrativismo. A partir de 1999, passou também a integrar atividades turísticas à sua economia, quando se tornou conhecido pelo Campeonato de Surfe na Pororoca.
Pororoca é o nome indígena que designa o fenômeno natural de ondas fortes e estrondosas, causado pelo encontro das águas dos rios amazônicos com o mar. Antes de ser utilizada para a prática do surfe, a pororoca já fazia parte das atividades lúdicas da população local. As pessoas “aparavam” a onda, ou seja, jogavam-se contra o rio ou fixavam-se em um poste e deixavam que a onda passasse por elas. Atualmente, somente o Festival da Pororoca é realizado, com intensa programação cultural, em março.
Fonte: Jornal Beira do Rio/UFPA




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