Barcos da imprudência
Enviada em 26 de julho de 2009 – Imprimir esta matéria – Enviar para um amigo
Diariamente, dezenas de pessoas arriscam as vidas a bordo de voadeiras para ‘pegar’ embarcações no meio do rio. O relato de passageiros, que embarcaram no barco Karolina do Norte nestas circunstâncias, confirma a falta de segurança e fiscalização nos recreios.
A bordo de uma voadeira, embora atrasados, os passageiros não perdem viagem. Para isso, arriscam a vida e embarcam de qualquer forma para chegar ao destino. Além do atraso, a estratégia também é ‘montada’ para burlar a lei, a qual garante que a embarcação leve mais pessoas do que o permitido, ou oficialmente relatado à Capitania dos Portos.
Na última sexta-feira, o EM TEMPO acompanhou a saída de barcos do Porto de Manaus e o mecanismo utilizado por dezenas de pessoas para entrar na embarcação já no meio das águas, de carona com as voadeiras que operam na área.
Lanchas tipo voadeiras com passageiros perseguindo barcos nas águas do rio Negro. A cena é comum nos rios da Região Amazônica, mas só chamam a atenção da sociedade e autoridades quando ocorrem tragédias como a que envolveu a embarcação Karolina do Norte na última terça-feira em Manaus, causando duas vítimas fatais. A embarcação levava pelo menos 185 pessoas com destino a Santarém (PA) e tombou no Educandos, Zona Sul de Manaus, quando o comandante da embarcação tentava realizar reparos nela.
Os barcos que saem do Porto Privatizado de Manaus, ou ainda da área da Manaus Moderna, deixam as listas contendo todos os nomes dos passageiros antes de sua partida, com a fiscalização da Capitania dos Portos.
Entretanto, minutos ou até mesmo horas após sua partida, novos passageiros entram nessas embarcações sem terem seus nomes inseridos na listagem. E a voadeira é o principal meio utilizado por quem quer driblar a fiscalização. Na maioria das vezes, ações como esta, acabam superlotando os barcos e facilitando acidentes, como colisão, abalroamento e naufrágios. Entre as inúmeras imprudências fluviais, esta tem se sobressaído.
Os passageiros que utilizam esses métodos afirmam que a manobra, na maioria das vezes arriscada, é apenas uma forma de garantir a chegada ao seu destino sem causar prejuízos, principalmente, econômico, pois o bilhete geralmente é comprado com antecedência. Entretanto, o que estas pessoas desconhecem é o perigo que enfrentam. Na última sexta-feira, a equipe do EM TEMPO se arriscou nessa aventura.
Partindo do Porto da área da Manaus Moderna, no Centro, uma lancha voadeira seguiu um barco com destino ao município de Parintins, localizado a 369 quilômetros de Manaus. Momentos antes da partida, por volta das 13h, várias pessoas corriam para apanhá-lo a tempo de evitar as lanchas.
Trabalhando em Parintins, mas realizando frequentes viagens a Manaus, a funcionária pública Ana Carolina Almeida, 32, disse que uma vez se arriscou pegando uma voadeira, mas prometeu nunca mais repetir a cena. “O catraieiro ia muito rápido e quando alcançamos o barco, o comandante não diminuiu a velocidade e tive que pular para o interior da embarcação com agilidade e por pouco não caio. Só me arrisquei porque precisar chegar a Parintins”, contou.
Segundo informações de catraieiros da área, que preferiram não se identificar, os valores cobrados para levar uma pessoa da beira do porto até o barco que segue viagem, variam de R$ 5 a R$ 150, dependendo da distância em que tiverem que alcançar a embarcação.
A viagem é no mínimo perigosa, pois a velocidade que as lanchas — que não oferecem nenhum tipo de segurança, a não ser coletes salva vidas — andam, são altas. A “perseguição aos barcos” só é feita pelos catraieiros mais experientes, pois como eles afirmam “há toda uma tática utilizada”. Durante o período em que a equipe do EM TEMPO esteve ‘perseguindo os barcos’, nenhuma fiscalização da Capitania dos Portos apareceu no local. Apesar disso, a assessoria de comunicação da entidade afirma que a fiscalização nos rios é rotineira.
A Capitania dos Portos informou ainda que tem conhecimento do procedimento irregular realizado por passageiros que embarcam no meio do rio e frisou que a irregularidade ocorre porque são as próprias pessoas que optam por elas.
Quando ocorre de uma embarcação ser pega em flagrante, realizando essa ação, ela tem de voltar ao porto de origem, retirar os passageiros e realizar uma nova contagem. O proprietário do barco é também multado.
Julgamento foi histórico
Este ano, um fato entrou para a história da Justiça do país: o julgamento do caso ‘Comandante Sales’. O primeiro acidente com embarcação julgado por júri popular no Amazonas.
O julgamento iniciou no dia 15 de abril, e após mais de 15 horas, o comandante do barco, Luís Alves de Sales, foi absolvido por quatro votos a três.
O acidente com o Comandante Sales ocorreu em maio de 2008, no rio Solimões, no município de Manacapuru, a 68 quilômetros de Manaus, e causou a morte de 48 pessoas. Sales comandava o barco mesmo sem ter a habilitação exigida pela Capitania dos Portos. Seu irmão e dono do barco, Francisco Sales morreu no acidente.
Um saldo de 169 vítimas
De 2005 até julho de 2009, ocorreram 203 acidentes envolvendo embarcações no Amazonas. Nesse mesmo período 169 pessoas morreram vítimas destes acidentes. Dados estatísticos da Capitania dos Portos mostram que a maioria dos acidentes são naufrágios, registrando 91, sendo que desse total, 31 ocorreram apenas em 2008. Em seguida, aparecem os abalroamentos (79) e as colisões (33).
Risco no Almirante Pinheiro
Além do risco para entrar nas embarcações no meio do rio, o EM TEMPO flagrou outra irregularidade no rio Negro. Com o barco Almirante Pinheiro já em movimento, seguindo viagem para Anamã e Anori, um grupo de quatro jovens se arriscava sentado na parte externa do barco. Em nenhum momento, o comandante da embarcação pediu para que os rapazes se retirassem do local. Nenhuma fiscalização parou o barco.
Fonte: Amazonas Em Tempo (Por Mônica Figueiredo)




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