Guascor leva energia aos grotões da Amazônia

Enviada em 28 de agosto de 2009 – Imprimir esta matériaEnviar para um amigo

Levar energia para comunidades isoladas da Amazônia parecia um desafio intransponível há apenas quinze anos. Ainda antes da privatização, a Centrais Elétricas do Pará (Celpa) promoveu várias licitações para comprar geradores a diesel, única solução considerada viável em recantos de difícil acesso. O resultado foi uma “salada de frutas” que inviabilizou a logística de manutenção, resume o engenheiro Fernando Pinho, ex-presidente da companhia estadual, referindo-se à variedade de modelos e marcas de equipamentos instalados em localidades distantes entre si, dificultando a administração de estoques e serviços.

O ovo de Colombo surgiu em 1997, quando a Celpa, em vez de comprar equipamentos, decidiu adquirir energia, informa Pinho, que hoje ocupa o cargo de diretor de operações da Guascor do Brasil, vencedora daquela concorrência pública.

Criada em 1966 na Espanha, como fabricante de motores marítimos, a empresa comprometeu-se a fornecer energia, ininterruptamente, em nove municípios na margem esquerda do Amazonas e 14 no arquipélago do Marajó. Para tanto, teve de adaptar sua tecnologia às condições de calor e umidade tropicais. Ao assumir usinas antigas, muitas vezes a empresa levou a operação para fora da área urbana, mesmo que os grupos geradores Guascor já fossem encapsulados em contêineres com isolamento acústico, reduzindo o ruído das máquinas para cerca de 70 Db.

Foi o caso de Breves, maior município do Marajó, hoje suprido com 10 grupos geradores e cerca de 8,5 MW de potência instalada, que atendem cerca de 46 mil habitantes. “Pago R$ 80 por mês”, relata o taxista Flavio Morais de Souza Junior, que considera o valor normal, para ter eletricidade dia e noite na casa de dois cômodos, divididos com cinco familiares. Junior só lamenta o fechamento das cinco grandes madeireiras, que eram as maiores empregadoras locais. Ex-funcionário da Madenorte, que, só ali, tinha mil funcionários, ele transportava as pessoas que realizavam levantamentos na mata para subsidiar planos de manejo exigidos pelo Ibama.

Apesar de sinalizar que buscaria a certificação, a Madenorte manteve irregularidades, como o uso de artifícios para propor planos de manejo em terras públicas, contrapõe Marcelo Marquesini, da Campanha Amazônia do Greenpeace. Tendo hoje a prefeitura como maior empregadora, Breves é, segundo ele, exemplo do ciclo “boom-colapso”.

Trata-se de uma sequência, identificada pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de alguns anos de rápido aumento de trabalho e renda graças à exploração florestal, seguidos da reversão da curva, quando a região desmatada volta a patamares econômicos abaixo da média regional (colapso).

Muitos desafios ainda envolvem funcionários da Guascor na operação cotidiana, reconhece Helder Costa de Souza, gerente de operação e manutenção da companhia. Foi o caso da grande inundação provocada por chuvas inesperadas em Alenquer (PA), que teria deixado os geradores sob as águas, não fosse a ideia de calçá-los imediatamente com grandes cubos de madeira. “Não interrompemos o fornecimento de energia”, comemora Souza, ao antever a multiplicação de eventos climáticos extremos na região, devido ao aquecimento global.

Com a vantagem competitiva de ter a operação verticalizada, desde a fabricação dos equipamentos, instalação, até a manutenção e geração de energia, a Guascor tem 63 usinas dieselelétricas na Amazônia. Além da Celpa, fornece para a Companhia de Eletricidade do Acre (Eletroacre), e Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron), somando 200 MW instalados, para atender um total aproximado de 1,5 milhão de pessoas nos três Estados.

Os investimentos na melhoria da eficiência de operações na Amazônia têm rendido bons frutos para a Guascor. Quando enquadrados pela Agência Nacional de energia Elétrica (Aneel) na subrrogação da conta de consumo de combustível (CCC), que subsidia o diesel usado na geração térmica em localidades isoladas, projetos de redução de consumo são premiados em até 75% do valor aplicado.

Usinas mais modernas, como a de Breves, ganharam geradores com tecnologias que garantem queima mais completa do diesel, o que, somado à filtragem de gases, reduz as emissões atmosféricas, de 350 gramas por KW produzido para 267 gr/kW, estima Pinho. Para completar, um software monitora, em tempo real, fatores como temperatura e consumo, e aciona geradores na medida exata da demanda. Por isso, entre 2008 e 2013, a empresa deve receber R$ 15 milhões pelos projetos de subrrogação aprovados no Pará.

Só que, se depender de novos projetos da Celpa, a Guascor pode sair do Marajó na próxima década. Em nota para o Valor, a distribuidora anunciou a intenção de investir R$ 490 milhões para inserir 15 municípios marajoaras no Sistema Interligado Nacional. Segundo a Celpa, o montante custeará a construção, em duas fases, de quase 1,4 mil km de novas linhas de transmissão, além de 16 novas subestações, e readequação de subestações e linhas existentes. Sem mencionar consultas ao Ibama, a distribuidora informa que um termo de referência emitido pela Secretaria de Meio Ambiente do Pará é a base para estudos ambientais, que visam o licenciamento das obras.

Focada nas diferentes modalidades de fornecimento em menor escala, a Guascor também mantém uma pequena central hidrelétrica (PCN) em Jaguari (RS), e soluções de energia com outras fontes, como solar, eólica e biodigestão, inclusive para consumidores privados, como centros comerciais. Para 2009, projeta faturar cerca de R$ 176 milhões, um crescimento de 9%.

Para ampliar o leque, desenvolve pesquisas para gerar energia com placas solares em composição com superbaterias. Com durabilidade de cinco anos, elas permitem armazenar energia por muito mais tempo. Segundo Pinho, isso permitiria, por exemplo, ter geração com placas solares em áreas da Amazônia onde muitas chuvas reduzem a insolação. Numa floresta, o impacto se limita à abertura de uma clareira de cerca de 250 m2, para instalar placas, diz ele. Outra frente de pesquisa é a combinação de fontes, por exemplo solar-térmica, ou térmica-eólica, para otimizar a geração, sem criar lacunas no fornecimento.

Fonte: Valor Econômico (Por Silvia Czapski, para o Valor, de Marajó)

* A jornalista viajou ao Marajó a convite da Guascor do Brasil