Jornalista e indigenista foram executados no Dia do Meio Ambiente. Área onde ocorreu o crime é dominada por traficantes, garimpeiros e madeireiros ilegais

A Polícia Federal informou, em entrevista coletiva realizada noite desta quarta-feira (14), que Amarildo Oliveira confessou participação no assassinato do jornalista Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira. Oliveira, conhecido como “Pelado” também indicou às autoridades a localização dos corpos.

De acordo com o superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Alexandre Fontes, na manhã de hoje a Polícia Federal levou Amarildo e seu irmão, Oseney da Costa de Oliveira, também envolvido no crime, até o local do crime.

Vista aérea mostra busca por Dom Phillips e Bruno Pereira no rio Itaguaí, no Vale do Javari, município de Atalaia do Norte, em 13 de junho de 2022 / Foto: João Laet/AFP

Materiais foram recolhidos e serão levados para confirmação da identidade amanhã. Uma reconstituição também foi realizada. Segundo o superintendente da PF, os corpos estavam enterrados em uma região de difícil acesso, a 3,1 km do local do crime, mata adentro.

Os dois pescadores admitiram que Philips e Pereira foram abordados e mortos no trajeto de barco entre a comunidade São Rafael e Atalaia do Norte. Segundo fontes indígenas ouvidas pela Amazônia Real, o jornalista e o indigenista foram vítimas de uma emboscada.

A motivação do crime seria em represália às denúncias de que os ribeirinhos estavam invadindo a Terra Indigena (TI) Vale do Javari, no Amazonas, para pescar ilegalmente pirarucu e tracajás (quelônios da Amazônia).

A participação de outras pessoas nos assassinatos ainda não foi confirmada pela PF. “Nós não descartamos a hipótese de outras pessoas estarem envolvidas. Temos muito o que fazer no inquérito para coletar seguramente provas de autoria e materialidade”, afirmou o Delegado da Polícia Civil, Guilherme Torres.

A morosidade do Governo Brasileiro em se articular para as buscas escancarou a situação de abandono em que vive a região.

A TI Vale do Javari é o segundo maior território indígena do país. O local, que abriga os povos Matis, Matsés, Tsohom-dyapa, Marubo, Kulina Pano, Korubo, Kanamari e vários grupos de índios isolados, é marcado pela forte pressão do garimpo ilegal, roubo de madeira, tráfico de drogas e pesca ilegal. 

A região também é alvo de cartéis de drogas e armas que agem na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia. Somente este ano, foram feitos seis pedidos do Governo Federal para reforço da proteção na região.

Segundo levantamento feito pelo Estadão, apenas seis agentes da Força Nacional de Segurança Pública são responsáveis pelo patrulhamento de 85 mil km², área duas vezes maior do que a Suíça.

As buscas e localização de pertences de Philips e Pereira só puderam ser feitas através dos esforços de indígenas dos povos Marubo, Mayuruna, Matis, Kanamari e Kulina, que se articularam desde as primeiras horas após o desaparecimento.

Na terça-feira (14) a Articulação Indígena do Brasil (APIB) enviou nova manifestação ao Tribunal Internacional de Haia, na Holanda. O documento denuncia o presidente Jair Bolsonaro como responsável pela prática de genocídio e de crimes contra a humanidade por extermínio, perseguilção e outros atos desumanos, incluindo a negligência nas buscas por Bruno Pereira e Dom Philips.

Funcionários da Fundação Nacional do Índio fizeram uma paralisação durante esta quarta-feira, em resposta a uma informação inverídica prestada pelo presidente do órgão, o delegado Marcelo Augusto Xavier da Silva, de que Philips não teria autorização para entrar na Terra Indígena. 

Eles também protestam contra o aparelhamento do órgão. Das 39 Coordenações Regionais da Funai, 19 são chefiadas por oficiais das Forças Armadas, 3 por PMs e 2 por policiais federais. Apenas 2 coordenações têm à frente servidores concursados.

Durante a tarde e noite desta quarta, várias entidades da sociedade civil e personalidades manifestaram suas condolências pela morte de Philips e Pereira.

O Observatório do Clima lembrou das outras vítimas na Amazônia. “O Brasil, um dos países que mais matam ativistas ambientais no mundo, vê se repetir no Javari a tragédia de Chico Mendes, Dorothy Stang, João Cláudio e Maria e tantos outros que confrontaram e confrontam os criminosos que atormentam os povos e saqueiam a floresta na Amazônia. No governo Bolsonaro, porém, a barbárie tem cúmplices no Palácio do Planalto e nas Forças Armadas.”

Dom Phillips toma notas na Aldeia Waikay, da tribo Yekuana, no estado de Roraima, Brasil, em 13 de novembro de 2019. Phillips desapareceu enquanto pesquisava um livro no Vale do Javari / Foto: João Laet/AFP

Entenda o caso

Dom Philips é um cidadão britânico que vive no Brasil desde 2007. Já contribuiu para vários veículos de renome, como Washington Post, New York Times, Financial Times e The Intercept, mas sua contribuição mais frequente era para o britânico The Guardian.

Atualmente morando em Salvador com a esposa, Alessandra Sampaio, Dom realizava viagens frequentes à Amazônia para seus trabalhos jornalísticos. 

Desde 2021, ele vinha pesquisando aspectos econômicos e a influência das mudanças climáticas na floresta tropical, trabalho viabilizado por uma bolsa da Alicia Petterson Foundation que viraria um livro sobre maneiras para salvar o bioma.

Como parte de sua investigação, o repórter viajou para o Amazonas em companhia do indigenista Bruno Pereira, membro da ONG Univaja e servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai), onde desempenhou a função de coordenador Regional de Atalaia do Norte – região do desaparecimento – por muitos anos. 

Bruno Pereira foi forçado a se licenciar de suas funções na FUNAI devido ao clima hostil que se instalou no órgão contra ele em 2019. Em setembro daquele ano, quando ainda era Coordenador-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato no órgão, ele coordenou a operação Korubo, uma grande investida contra o garimpo ilegal no sudoeste do Amazonas que destruiu 60 balsas dentro da Terra Indígena Vale do Javari. 

Pereira foi exonerado do cargo de coordenador geral 15 dias depois da operação pelo secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Luiz Pontel de Souza, sub do então ministro Sérgio Moro. Segundo organizações da região, a partir daquela megaoperação, a Funai começou a receber muita pressão de garimpeiros e pessoas ligadas ao lobby do setor. Tanto é que depois da exoneração de Pereira, nenhuma outra grande operação foi realizada pelo órgão.

Bruno era alvo de constantes ameaças por seu trabalho junto aos indígenas e contra invasores de terra, garimpeiros, madeireiros e pescadores ilegais.

Dom e Bruno foram vistos pela última vez na comunidade de São Rafael, dentro da TI Vale do Javari, por volta das 6h da manhã do dia 5 de junho, um domingo. Eles estavam em uma embarcação rumo a Atalaia do Norte, destino que ficava a cerca de duas horas de barco, mas nunca chegaram ao local.

Na segunda-feira (6), a Coordenação da Organização Indígena UNIJAVA publicou uma nota informando sobre o desaparecimento. As buscas, por parte dos indígenas, começou na tarde daquele mesmo dia, mas a do governo brasileiro demorou para agir, o que gerou inúmeras críticas, dentro e fora do país.

Na tarde do dia 6, mais de 24h depois do desaparecimento, o Comando Militar da Amazônia, do Exército Brasileiro, informou que “tinha condições de cumprir a missão humanitária de buscas e salvamento” dos dois, “contudo, as ações serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior”. As buscas, por parte das Forças Armadas, só começaram efetivamente no dia seguinte. 

No dia 7, o suspeito Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como “Pelado”, foi preso. Ele foi avistado por ribeirinhos passando no rio logo atrás da embarcação de Bruno e Dom. Sua prisão, inicialmente, não foi por envolvimento no desaparecimento, mas porque a polícia, durante as investigações, encontrou em sua posse drogas e munição de uso restrito.

A polícia, no entanto, ao apreender e periciar a lancha usada por Amarildo, informou ter encontrado vestígios de sangue. Faltava confirmar se, de fato, se tratava de sangue humano ou animal.

No dia 10, sexta-feira, a porta-voz de direitos humanos da ONU condenou a lentidão do governo brasileiro nas buscas pelos desaparecidos e pediu que os esforços fossem redobrados. “É crucial que as autoridades federais e locais reajam de maneira robusta, disponibilizando todos os meios e recursos existentes para uma busca eficiente na área remota em questão”, disse a porta-voz, Ravina Shamdasani.

No dia 12, uma semana após o desaparecimento, equipes de busca encontraram vários itens que pertenciam a Bruno e Dom. Na lista divulgada pela polícia e pelos bombeiros, constavam: notebook, cartão de saúde em nome de Bruno Pereira, calça preta de Bruno, chinelo preto de Bruno, par de botas de Bruno, par de botas de Dom Philips e uma mochila de Dom contendo roupas pessoais. 

Segundo profissionais envolvidos nas buscas, havia indicativos de tentativa de ocultação dos pertences, já que eles estavam presos à vegetação, que fica submersa.

Na manhã do dia 13 de junho, segunda-feira, a esposa de Philips, Alessandra Sampaio, foi informada de que os corpos teriam sido encontrados. Ela foi avisada pelo cunhado dela, que recebeu a informação da Embaixada do Brasil no Reino Unido. 

Naquele mesmo dia, a Polícia Federal e a Unijava negaram que os corpos tivessem sido achados. Na terça-feira, a  Embaixada do Brasil admitiu ter informado erroneamente sobre os corpos e se desculpou à família.

No dia 14 de junho, terça-feira, a polícia prendeu o segundo suspeito, Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, irmão de Amarildo. Na ocasião, o envolvimento dele com o desaparecimento não foi informado.

Por Cristiane Prizibisczki
Fonte: O Eco

Por Editoria

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