Como começou o conflito no Vale do Javari e por que os indígenas decidiram se defender

Como começou o conflito no Vale do Javari e por que os indígenas decidiram se defender


Cooptação de ribeirinhos por rede de ilegalidades leva violência a território onde atua servidor da Funai desaparecido

O indigenista Bruno Pereira, desaparecido desde 5 de junho, licenciou-se da Fundação Nacional do Índio (Funai) em 2019. Perseguido pela cúpula do órgão, ele percebeu que a única maneira fazer a diferença era atuar diretamente na Terra Indígena (TI) Vale do Javari.

Ignorados pelo governo federal, os indígenas convidaram o servidor para enfrentar uma rede criminosa, que envolve pesca e caça ilegais e pode estar ligada ao tráfico de drogas. A proliferação das ilegalidades empurra indígenas e ribeirinhos para lados opostos de um conflito que já dura pelo menos 20 anos.  

“Um protege o outro”: o indigenista Bruno Pereira (ao centro) no Vale do Javari – Divulgação/Funai

Os donos do território foram forçados a se defender por meios próprios. “Estávamos fazendo a fiscalização que seria dever do Estado. Estamos fazendo esse trabalho e continuaremos a fazer”, conta uma liderança sob anonimato. 

Ao Brasil de Fato, o indígena compartilhou como era a rotina em alerta permanente de Pereira e da equipe de vigilância, dias antes do desaparecimento no último domingo (5). “Nós decidimos não nos afastar um do outro nem para ir ao banheiro. Todo o cuidado era pouco”.

Pesca ilegal é um problema antigo

Não é de hoje que o Vale do Javari, um dos últimos remanescentes de povos isolados no mundo, tem seus recursos naturais saqueados. “Os pescadores nunca aceitaram a demarcação do território, que foi homologado em 2001”, conta Armando Soares, chefe da unidade descentralizada da Funai no Vale do Javari entre 2003 e 2005, e amigo de Bruno Pereira. 

“Já apreendi mais de uma tonelada de pirarucu seco. A gente ouviu o barulho dos invasores, começamos a dar tiros pra cima e eles largaram todas mochilas enormes cheia de carne de pirarucu salgada”, relembra o indigenista de 72 anos. 

Já naquela época, a bifurcação dos rios Ituí e Itaquaí, onde desapareceram Pereira e o jornalista Dom Phillips, era considerada um “armazém” de pescadores e caçadores ilegais. Extraídos intensamente, os recursos naturais começaram a faltar para os indígenas.

“E aí começou o clima de agressividade entre os dois lados. Esses ribeirinhos, financiados por colombianos e peruanos, pescavam, caçavam, tiravam madeira na terra indígena e levavam esses produtos para compradores nas cidades da região”. 

Em foto de 2019, Dom Phillips entrevista indígenas em Roraima; jornalista e indigenista brasileiro estão desaparecidos desde domingo
Em foto de 2019, Dom Phillips entrevista indígenas em Roraima; jornalista e indigenista brasileiro estão desaparecidos desde domingo – João Laet / AFP

Assim como Bruno, Soares correu perigo ao enfrentar a situação. A diferença era a presença do apoio do governo federal, muito mais constante na época. “Eu só não morri porque a Polícia Federal e o Exército me deram uma forte proteção”, diz o ex-chefe da Funai no Vale do Javari. 

Assim como o Soares, o geógrafo e professor Aiala Couto, da Universidade do Estado do Pará (UEPA) diz que a situação se agravou nos últimos cinco anos, em função da chegada de facções ligadas ao tráfico de drogas.

As organizações criminosas transportam cocaína ao Brasil utilizando as mesmas rotas dos pescadores e caçadores ilegais. O fator de maior influência, segundo o pesquisador, foi o enfraquecimento das políticas ambientais, principalmente na gestão de Jair Bolsonaro (PL).

“O incentivo ao garimpo e à exploração legal de madeira fortaleceu não apenas a retirada de recursos naturais, mas também o crime organizado do narcotráfico, afirma Couto. “As facções começam se conectar com o crime ambiental que já ocorria lá. E é óbvio que isso é responsabilidade do governo federal”.

A rotina de medo dos defensores da floresta

No dia do desaparecimento, Pereira e Philipps dormiram na base de vigilância indígena Canoão, perto do lago Jaburu, onde o cotidiano era de tensão. “Sempre fazemos plantão de dois em dois homens, enquanto o resto vai descansando”, relatou o indígena, membro da equipe de monitoramento.

Conforme a liderança, eles estavam obtendo sucesso em intimidar os invasores. A custo, porém, de uma crescente sensação de insegurança. “Bruno disse que ia buscar mais recursos para que pudesse aumentar a equipe de 13 para 20 ou mais homens. Só assim nós poderíamos estar mais seguros. Um protege o outro”, contou. 

Na base de vigilância, o jornalista Dom Phillips entrevistou os protetores do território. “Falamos do que a gente esperava do Estado e como nós estávamos reagindo contra o Estado, contra essa devastação. E como nós estávamos resistindo à invasão de pescadores e caçadores na nossa região”, descreveu.

A cooptação de ribeirinhos pelo tráfico

Na TI Vale do Javari, a madeira extraída ilegalmente não é usada na construção de casas nas comunidades. Os peixes e animais retirados da área protegida não viram comida no prato de ribeirinhos. Na verdade, a região é palco de um esquema vultoso de extração de recursos naturais, comercializados a preços altos e impulsionados por traficantes.

“O tráfico de drogas está cada vez mais relacionado aos crimes ambientais”, constata Aiala Couto, da UEPA. “São atividades criminosas que se conectam e se complementam. Até porque as mesmas rotas utilizadas para o tráfico de cocaína são usadas para o transporte de madeira, que é exportada para o mercado europeu”.

Quando o governo federal abandona o controle territorial da região, o crime ambiental se torna uma oportunidade para facções criminosas diversificarem suas operações.

Vale do Javari: liderança Korubo e ex-coordenador da Funai Armando
Soares em 2003 / Cedidas por Armando Soares

Soares acredita que alguns ribeirinhos, cooptados pelo poder econômico do crime, atuem na logística do transporte das drogas e da extração ilegal de recursos naturais, utilizando o conhecimento da região para burlar a fiscalização. 

“Eles invadem a terra indígena, pescam e caçam e tiram ovos de tartaruga. E a base deles são as comunidades. Uma delas é muito frequentada pelos traficantes de carne. E de lá eles armavam expedições e tinham caminhos enormes que davam uma volta bem grande para poder entrar na terra indígena. Ou entravam pelo rio e passavam pela base da Funai em silêncio, de madrugada”, descreve Armando Soares.

Aproveitando da vastidão da TI Vale do Javari, a segunda maior do Brasil, pescadores e caçadores atuavam onde a fiscalização não chegava. “Faziam grandes acampamentos, limpavam o solo, armavam barracas, faziam varais e dependuravam sacos de plástico com filhotinhos de peixe que eles iam transportando aos poucos para fora da TI através desses caminhos na mata”, afirma o servidor federal. 

Ao deixar crescer a extração ilegal de recursos naturais, o governo federal abriu as portas da Amazônia à presença de facções. Há grupos locais, como a Família do Norte (FDN) em Manaus e o Comando Classe A, de Altamira (PA). A influência significativa do PCC tem sido superada pelo Comando Vermelho, principalmente no interior do Amazonas.

Aiala Couto atesta que a principal rota de tráfico na Amazônia atualmente é o rio Solimões, por onde viajam as drogas até o litoral nordestino, antes de serem levadas ao exterior. O rio Javari, embora menos importante para os traficantes, tem ganhado relevância logística.

“No Javari, existe um grupo criminoso local que surge a partir da dissidência da FDN, chamado Os Crias. Então você tem garimpeiros, madeireiros e narcotraficantes em uma área de disputa. É obvio que, em função dessa situação, o local se transforma em uma zona de conflito para indígenas, ribeirinhos e servidores”, explica Couto.

“Funai não protege nem eles mesmos”

Sem investimentos e com o crescimento do crime ambiental em proporções inéditas, os servidores da Funai não conseguem proteger o território. A liderança indígena que trabalha com Bruno diz que o policiamento fornecido pelo órgão indigenista é “praticamente inútil”. Por isso, a solução foi fazer a fiscalização por conta própria. 

“A Funai diz que está protegendo índios isolados. Eles não protegem nem eles mesmos. A força policial que existe nas bases (da Funai) é para proteger o funcionário da base, não o território. Eles não andam sequer 800 metros para longe daquela bendita base. Os índios é que dão proteção para eles”.

A liderança acrescenta: “A Funai nos impede de fazer nossa própria fiscalização e monitoramento do território. Nos impedem de proteger nossa própria casa. Eles deviam estar aliados aos indígenas”.

Um exemplo de vulnerabilidade dos servidores é a morte, há três anos, do colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos. Na Frente de Proteção Etnoambiental ele trabalhava em operações contra o garimpo, exploração ilegal de madeira, além de caça e pesca ilegais.

Aos 34 anos, Santos foi assassinado com um tiro na nuca quando andava de moto com a esposa. O caso nunca foi solucionado, e os colegas têm convicção de que ele foi morto em represália ao combate aos invasores. 

Antes do crime, a base em que ele trabalhava já havia sofrido pelo menos três ataques a tiros desde 2018. 

“Em respeito a eles”

Nos últimos dias, os vigilantes indígenas foram obrigados a interromper momentaneamente a fiscalização. Eles concentram esforços em encontrar Dom Philips e Bruno Araújo. Mas, quase uma semana após o desaparecimentodizem ter começado a perder as esperanças. 

“Juntamos 40 ou 50 homem na busca de uma pessoa [Bruno Pereira] que sempre lutou pelas nossa indígenas, pelo bem estar do indígena. E um estrangeiro [Dom Phillips] que tentava mostrar a realidade do Vale do Javari. Então, em respeito a eles, nós temos que fazer essa mobilização”, diz o aliado de Bruno. 

Por Murilo Pajolla
Edição: Rodrigo Durão Coelho
Fonte: Brasil de Fato


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