Em um único ano, o país perdeu 16.557km² de vegetação nativa, área equivalente a quase 11 vezes a cidade de São Paulo, sendo mais de 98% com indícios de irregularidades

Em 2021, o Brasil perdeu 16.557km² – ou 1,65 milhão de hectares – de cobertura de vegetação nativa, uma área equivalente a quase 11 vezes a cidade de São Paulo ou mais da metade do território da Bélgica. A taxa representa um aumento de 20% em relação ao desmatado em 2020. A Amazônia liderou os registros de desmatamento, seguido pelo Cerrado e pela Caatinga. Os dados são de levantamento do MapBiomas divulgado nesta segunda-feira (18), no Relatório Anual de Desmatamento no Brasil (RAD). Para chegar a estes números, o estudo validou individualmente 69.796 alertas de desmatamento em todo o país.

A Amazônia foi o bioma líder em destruição, com mais da metade (59%) da área desmatada no país em 2021, com 977 mil hectares desmatados no ano. O valor representa uma alta de 15% em relação a 2020 e 27% a mais que o total desmatado em 2019, primeiro ano do governo de Bolsonaro.  

Somente na Amazônia foram 111,6 hectares desmatados por hora em 2021. Acima, desmatamento flagrado em Manicoré, no Amazonas, em junho de 2022 / Foto: Mauro Pimentel/AFP

Em segundo lugar na lista ficou o Cerrado, com 500.537 hectares (30%); seguido pela Caatinga, com 116.260 hectares (7%); Mata Atlântica, com 30.155 hectares (1,8%); Pantanal, com 28.671 hectares (1,7%); e o Pampa, que perdeu 2.426 hectares, cerca de 0,1% do total da área desmatada no país. Apesar de responder pela menor área de alertas, o Pampa liderou o crescimento da taxa de desmatamento, que quase dobrou (92,1%) comparado ao ano anterior.

Desmatamento entre os biomas do Brasil / Fonte: MapBiomas – Reprodução

Ainda de acordo com o relatório, a agropecuária foi responsável por 96,6% do desmatamento no país – patamar que o setor mantém nos últimos três anos.

“Duas regiões caracterizadas pela expansão orientada das atividades de agropecuária se tornaram regiões de importante pressão de desmatamento: Amacro e Matopiba. A região Amacro é onde se encontra a divisa de três estados amazônicos (Amazonas, Acre e Rondônia) e é considerada a nova fronteira do desmatamento na Amazônia. Já o Matopiba é uma região no encontro dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde vem se intensificando a expansão da agricultura principalmente no bioma Cerrado nas últimas duas décadas”, detalha o relatório.

No Matopiba, em 2021, concentrou-se 23,6% da área desmatada no Brasil. Já a região Amacro respondeu por cerca de 12,2% do total de supressão de vegetação nativa no país. 

Individualmente entre os estados, o Pará liderou a perda de vegetação nativa. De cada quatro hectares desmatados no Brasil em 2021, um foi em território paraense, onde desmatou-se 402.492 hectares (24,3% do total). Completam o infame ‘top 5’ deste ranking: Amazonas (11,8%), Mato Grosso (11,5%), Maranhão (10,1%) e Bahia (9,2%). Juntos, esses 5 estados responderam por 67% da área desmatada no Brasil em 2021.

Desmatamento ilegal e privado

No cruzamento de dados entre alertas de desmatamento e áreas protegidas, autorizações e Cadastro Ambiental Rural (CAR), foi constatado indícios de irregularidades em mais de 98% dos casos. Apenas em 1,34% dos alertas (que correspondem a 0,87% do total desmatado) não foram encontrados indícios ou evidências de infração ambiental.

Já entre as categorias fundiárias, foram as propriedades privadas que acumularam os maiores registros de desmatamento em 2021, com 69,5% do total, sendo 14,1% em assentamentos rurais. Outros 10,6% ocorreram em terras públicas – sendo 9,3% áreas não destinadas pela União. Dentro de áreas protegidas registrou-se 5,3% do total desmatado, sendo 3,6% dentro de unidades de conservação e 1,7% em Terras Indígenas.

O estudo destaca ainda que os alertas de desmatamento sobrepostos a imóveis rurais cadastrados no CAR correspondem a 77% da área total desmatada, o que significa que “em pelo menos 3/4 dos desmatamentos é possível encontrar um responsável”. Ao todo, 59.181 propriedades registraram desmatamento em 2021, o equivalente a menos de 1% do total de imóveis cadastrados até 2021. Desses, uma fatia ainda menor, de 19.953 propriedades são reincidentes, ou seja, já haviam registrado desmatamento nos anos anteriores de 2019 e/ou 2020.

“Para resolver o problema da ilegalidade é necessário atacar a impunidade — o risco de ser penalizado e responsabilizado pela destruição ilegal da vegetação nativa precisa ser real e devidamente percebido pelos infratores ambientais”, explica o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo. “Para isso, é preciso atuar em três frentes, assegurando que: todo desmatamento seja detectado e reportado; todo desmatamento ilegal receba ação de responsabilização e punição dos infratores (ex. autuações, embargo); o infrator não se beneficie da área desmatada ilegalmente e receba algum tipo de penalização (ex. restrições de crédito, pendência do CAR, impedimento de regularização fundiária, exclusão de cadeias produtivas)”, explica Tasso.

Foto: Raphael Sobania

Ritmo acelerado

Outro destaque do estudo é que aumentou a velocidade média de desmatamento no país, que era de 0,16 hectares por dia para cada evento de desmatamento detectado e validado em 2020 e saltou para 0,18 hectares diários para cada evento de desmatamento detectado e validado. Com uma média diária de 191 novos eventos, a área de desmatamento por dia em 2021 foi de 4.536 hectares – ou 189 hectares por hora. Somente na Amazônia foram 111,6 hectares desmatados por hora ou 1,9 hectare por minuto, o que equivale a cerca de 18 árvores por segundo.

Este é o terceiro ano do relatório, que compila dados sobre o desmatamento nos seis biomas brasileiros, detectados, refinados e validados pela equipe do projeto MapBiomas Alerta. Nestes últimos três anos, o total desmatado no Brasil somou 42 mil quilômetros quadrados, área superior ao tamanho da Suíça (clique aqui para ler o relatório na íntegra).

Por Duda Menegassi
Fonte: O Eco

Por Editoria

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